Gostaria de ser um habilidoso pintor de telas? Quer ficar expert em tocar algum instrumento musical? Tem por objetivo se tornar extremamente hábil em programação? Tudo o que você precisa fazer é praticar por 10.000 horas.
Pelo menos é o que diz Malcolm Gladwell, autor do famoso livro “Fora de série – Outliers: Descubra por que algumas pessoas têm sucesso e outras não“.
De acordo com o escritor, se você dedicar 20 horas por semana à prática de uma tarefa específica na qual ainda não tem domínio ou experiência, ao final de 10 anos você terá acumulado as 10.000 horas necessárias para se tornar um expert naquela área. Caso queira acelerar esse processo, basta aumentar o tempo semanal dedicado à prática, alcançando a maestria em um período inferior.
No best-seller acima mencionado, Gladwell garante que independentemente da aptidão natural de uma pessoa, com prática suficiente (10.000 horas), qualquer um pode alcançar um nível de proficiência que rivalizaria com o de um profissional.
Em apoio à tese, o psicólogo John Hayes analisou setenta e seis compositores clássicos famosos e descobriu que, em quase todos os casos, esses compositores não criaram seu maior trabalho até que tivessem composto por pelo menos dez anos. As únicas exceções foram Shostakovich e Paganini, que levaram nove anos; e Erik Satie, que levou oito anos.
Gladwell cita os Beatles e Bill Gates como provas desta teoria. Quer saber o que aconteceu com eles?
Os Beatles e a Regra das 10.000 horas
Antes de se tornarem uma das bandas mais famosas do mundo, os integrantes dos Beatles passaram por um período de intensa prática e aperfeiçoamento.
Entre 1960 e 1964, eles tocaram em clubes noturnos de Hamburgo, na Alemanha, onde eram obrigados a se apresentar por horas a fio, muitas vezes sete dias por semana. Essas maratonas de apresentações totalizaram cerca de 1.200 shows e milhares de horas de prática.
Sim, em cerca de quatro anos eles alcançaram algo em torno de 10.000 horas de experiência. Resultado: foram de banda que tocavam em clubes de strip para Os Beatles.
Essa fase em Hamburgo foi crucial para o crescimento da banda. É claro que o talento natural, a química entre os membros e as oportunidades únicas também desempenharam um papel importante para o sucesso da banda. Mas não podemos descartar essas pelo menos 10.000 horas de prática como um fator essencial para estes músicos se tornarem especialistas em sua arte.
Bill Gates e a Regra das 10.000 Horas
O jovem Bill Gates teve a rara oportunidade de acessar um computador na adolescência, algo extremamente incomum na década de 1960.
Ele frequentou a Lakeside School, uma escola privada em Seattle, onde pode começar a programar muito antes da maioria das pessoas.
Gates passou incontáveis horas programando, muitas vezes durante a noite e nos fins de semana. Ele e seus amigos, incluindo Paul Allen (cofundador da Microsoft), praticamente viviam no laboratório de informática da escola.
Gladwell estima que, antes de Gates entrar na faculdade, ele já havia acumulado milhares de horas de prática em programação; e que quando fundou a Microsoft em 1975, o bilionário já havia atingido as 10.000 horas de exercício em programação, o que o tornou um especialista em sua área.
As oposições à Regra das 10.000 Horas
Um artigo do jornalista Jared Lindzon entitulado New Study Destroys Malcolm Gladwell’s 10,000 Hour Rule, publicado pela revista Forbes em 2014, questionou a generalização da Regra das 10.000 Horas popularizada por Malcolm Gladwell.
Tal estudo discorre sobre a investigação liderada pela psicóloga Brooke Macnamara, que analisou resultados acerca do impacto da prática no desempenho de atividades de diferentes áreas, como música, esportes, educação, etc.
O trabalho acadêmico de Macnamara concluiu que de todos os fatores que influenciam a performance de uma pessoa em uma determinada área, a prática foi responsável por apenas 12% das diferenças observadas. Em outras palavras, a psicóloga concluiu que a quantidade de tempo que alguém dedica à prática não é a principal chave para o destaque e sucesso na mesma.
O trabalho acadêmico destacou talento natural, inteligência, oportunidades e contexto socioeconômico como outros fatores relevantes para uma pessoa ser bem sucedida em sua área de atuação.
Macnamara concluiu que nem todos alcançam a maestria no mesmo ritmo – algumas pessoas podem atingir níveis altos de desempenho com menos horas de prática enquanto outras podem precisar de mais tempo.
Repare como isso tem relação direta com a área de atuação, confome a pesquisa realizada:
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- Em jogos, a prática representou uma diferença de 26%;
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- Em música, a diferença foi de 21%
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- Em esportes, 18%
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- Em educação, 4%
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- Em profissões, apenas 1%.
- Em profissões, apenas 1%.
O psicólogo Anders Ericsson, que pesquisou como a prática intensiva e focada leva à proficiência em habilidades específicas, cita um argumento digno de nota sobre o xadrez, um jogo notavelmente conhecido pela necessidade de intenso treino para alcançar a perícia.
Ele cita um estudo de Guillermo Campitelli e Fernand Gobet com 104 jogadores de xadrez competitivos. Esta pesquisa identificou que o tempo médio para atingir o status de “mestre” foi de onze mil horas. Porém, houve um jogador que alcançou este nível em apenas três mil horas.
Na área dos esportes, por outro lado, Epstein relata um estudo feito com uma amostra de jogadores da seleção australiana que informa que leva apenas quatro mil horas para atingir níveis internacionais no basquete.
É irrefutável que a prática é essencial para alcançar profissionalismo e domínio de alguma técnica ou especialização. Mas o que você acha? Dez mil horas é o número mágico neste propósito? O que para você é mais impactante para a maestria em uma atividade? Compartilhe sua opinião nos comentários, vai ser muito legal saber.