Em 2025 nasceram os bebês que representam uma nova geração — a Geração Beta, formada por indivíduos que nascerão aproximadamente entre 2025 e 2039.
Assim como a Geração Y foi marcada pela transição do analógico para o digital e a Geração Alfa teve sua infância atravessada pela pandemia da COVID-19, a Geração Beta carrega uma particularidade muito singular: é a primeira geração a nascer em um mundo onde a inteligência artificial já está amplamente disponível e integrada ao cotidiano.
Você já parou para pensar no quanto esses fatores podem impactar os adultos que esses bebês irão se tornar?
É claro que tudo o que sabemos até aqui envolve hipóteses, análises e projeções. Mas isso não nos impede de observar tendências e tentar imaginar caminhos possíveis.
Hoje, o convite é exatamente esse: uma viagem ao futuro para refletir sobre que tipo de adultos poderão ser os bebês da Geração Beta.
Filhos de Millennials
Os Millennials, geração nascida, de forma geral, entre o início dos anos 1980 e meados dos anos 1990, cresceram, em grande parte, em um lar onde os pais eram mais autoritários, emocionalmente distantes e sem muito espaço para o diálogo.
Na maioria dos casos, isso não acontecia por falta de amor, mas por falta de informação. Quem é Millennial provavelmente se lembra de como, durante a infância e a adolescência, temas como saúde mental, emoções e sofrimento psicológico raramente eram nomeados ou discutidos abertamente.
Quando essa geração se tornou pai e mãe, trouxe consigo um projeto muito claro: não repetir o que os feriu.
Por isso, a parentalidade Millennial passou a ser marcada por algumas intenções conscientes, a saber:
- Estar presente na vida dos filhos
- Dialogar abertamente
- Investir em educação emocional
- Buscar informação, métodos e especialistas
Tudo isso com um objetivo bem definido: não traumatizar.
Mas essa parentalidade tão planejada também teve um custo.
Pais e mães Millennials tendem a se culpar com facilidade, têm dificuldade em dizer “não”, confundem proteção com controle e acabam observando e explicando demais. O resultado não é falta de amor, mas excesso de vigilância emocional.
São adultos que criaram ambientes afetivos mais seguros do que aqueles em que cresceram, mas também ambientes onde o erro infantil, o tédio e o desconforto foram reduzidos.
E qual o impacto disso nos filhos, atuais Geração Alfa e Geração Beta?
Eles recebem muito afeto, muito estímulo e muita presença adulta. Por outro lado, tendem a ser menos treinadas para lidar com frustração, espera e tédio.
Imagine uma criança que, ao invés de brincar sozinha no quintal, tem agendas lotadas de aulas de ballet, inglês, teclado e terapia emocional desde os 5 anos!
Sim, ela pode ser brilhante em algumas áreas, mas pode não aprender a lidar com o silêncio ou o fracasso.
A geração criada em um campo de guerra
As crianças da Geração Alfa e da Geração Beta estão sendo formadas em um mundo bem mais instável e imprevisível do que aquele em que cresceram seus pais.
Pare para pensar em tudo o que aconteceu na última década — a pandemia do COVID-19, as guerras entre Ucrânia e Rússia, Israel e Palestina e a constante ameaça de uma terceira guerra mundial, crises econômicas recorrentes, inflação persistente e insegurança climática, apenas para citar alguns problemas.
Isso tem consequências profundas no tipo de adulto que as crianças da Geração Beta e também da Geração Alfa podem se tornar, afinal, os pais desses inocentes serzinhos estão criando seus filhos sob constante pressão de perder renda, de não conseguir sustentar o padrão mínimo e de não preparar os filhos para o mundo real.
Essa ansiedade não fica restrita ao adulto, logicamente ela atravessa a infância.
Mesmo quando não é verbalizada, ela se manifesta em hiperproteção com um recado implícito: “O mundo é hostil demais para você enfrentar sozinho.”
O resultado?
Uma geração de adultos cautelosos demais, inseguros demais e dependentes demais de estruturas externas para funcionar.
O efeito de discursos como “O mundo está difícil”, “Não sabemos como será amanhã”, “Você precisa estar preparado para tudo” é bem diferente da ambição benéfica que moldou nossos amados pais, a Geração Baby Boomers.
Assim, forma-se uma sociedade de adultos que tendem a evitar riscos, buscar conforto imediato, abandonar processos longos e desistir rápido diante de frustrações.
Geração Beta: os pioneiros do mundo da IA
Grande parte das crianças da geração anterior, a Alfa, cresceu em meio a estímulos intensos e constantes de telas. Durante muito tempo, celulares e tablets foram vistos como aliados quase milagrosos capazes de entreter, ensinar e facilitar a rotina adulta.
Minha sobrinha, que completa 15 anos em 2026, cresceu exatamente nesse contexto.
Com o tempo, porém, o que antes parecia solução começou a revelar efeitos colaterais.
Hoje sabemos que o superestímulo visual, a rapidez das imagens e a exposição excessiva podem prejudicar aspectos do desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.
Minha outra sobrinha, que completa 3 anos em 2026, já nasceu em um mundo diferente — um mundo que alerta que o acesso às telas deve ser mediado e, de preferência, adiado.
É nesse cenário que nasce a Geração Beta. Mas com um agravante: a inteligência artificial.
A inteligência artificial traz ganhos inegáveis. Ainda assim, surgem bandeiras vermelhas que não podem ser ignoradas.
Com respostas imediatas, textos prontos e imagens e vídeos gerados em segundos, é legítimo questionar: quem vai gastar tempo pensando, criando e imaginando do zero?
Se é possível construir um avatar com respostas elaboradas e conversas calculadas, quem estará disposto a enfrentar as inseguranças, os silêncios e as tentativas frustradas que fazem parte das relações humanas reais?
Em um mundo onde imagens e vídeos ultrarrealistas podem ser criados artificialmente, como ensinar crianças a diferenciar verdade, ficção e manipulação?
E quanto à educação, a escola continuará sendo como é hoje?
Se a IA oferece soluções imediatas, talvez memorizar conteúdos deixe de ser o eixo central da aprendizagem e ocorra uma transformação profunda em conceitos escolares.
A educação das crianças da Geração Beta talvez incluirá matérias que tenham a ver com a capacidade de formar pensamento crítico, de desenvolver criatividade e de manifestar inteligência emocional, conceitos que, para gerações anteriores, ocorriam de maneira natural e intuitiva.
E tem também a questão que envolve o risco da perda de empregos para a IA.
A Geração Beta pode chegar à vida adulta em um cenário onde muitas funções foram automatizadas e empregos intermediários desapareceram por conta dos avanços da IA.
Isso desmonta uma das bases psicológicas do mundo onde eu e provavelmente você fomos criados: que trabalho e dedicação produzem segurança.
Quando essa promessa quebra cedo, surgem dois caminhos comuns:
1. Cinismo (“não adianta tentar”)
2. Dependência (“alguém ou algo precisa decidir por mim”)
Em uma realidade onde desde cedo a resposta vem pronta e o processo é dispensável, é natural que as pessoas pensem menos antes de agir, sejam intolerantes ao desconforto mental e terceirizem decisões difíceis
E a questão aqui não é falta de capacidade, mas o fato de nunca precisar sustentar o pensamento sozinho.
Outro efeito do uso exacerbado da IA é a atrofia social. Uma vez que a Inteligência Artificial pode organizar conversas, sugerir respostas e mediar conflitos, nossos bebês e crianças da Geração Alfa e da Geração Beta podem crescer destreinados socialmente.
Assim, um adulto da Geração Beta até pode escrever bem e parecer articulado. No entanto, pode travar diante de conflito presencial, evitar negociações desconfortáveis e desistir de vínculos complexos.
Para ilustrar todos esses pontos que vimos até agora, vamos projetar um cenário realista: imagine um adulto beta aos 21 anos, em 2046. Não um herói inovador, mas alguém comum, lidando com as consequências dessa infância.
Um dia na vida de João: um adulto da Geração Beta aos 21 anos
O ano é 2046 e nosso personagem é João, um jovem adulto de 21 anos.
João nasceu em 2025, filho de pais Millennials, criado em um ambiente urbano comum — sem grandes privilégios, mas também sem privações extremas.
Fisicamente, João passa despercebido. Não há fragilidade evidente, mas também não há vigor. Seu corpo funciona, desde que não seja exigido por muito tempo. Longos esforços o cansam rápido. A relação com o próprio corpo é utilitária: ele cuida quando algo dói, ignora quando está apenas desconfortável. Exercício físico existe, mas quase sempre mediado por aplicativos, metas e lembretes automáticos.
Emocionalmente, João sabe nomear o que sente. Cresceu aprendendo palavras como ansiedade, exaustão, sobrecarga e frustração. O problema não é a falta de consciência emocional, mas a dificuldade em sustentar essas emoções sem evitá-las. Quando algo incomoda demais, ele se afasta, adia, silencia ou terceiriza a decisão.
João foi uma criança muito ouvida. Muito explicada. Muito protegida. Por isso, lida mal com ambientes que não oferecem acolhimento, clareza ou paciência. Situações ambíguas o paralisam. Conflitos diretos o desgastam mais do que deveriam.
No cotidiano, João busca eficiência. Quer respostas rápidas, processos curtos e resultados previsíveis. Quando a realidade exige espera muito gasto de energia mental, ele se desliga. Não por rebeldia ou desinteresse, mas por fadiga antecipada.
No trabalho, João não constrói uma identidade. Ele ocupa funções.
Já passou por diferentes áreas, cursos e projetos. Não porque seja inquieto ou curioso, mas porque nada parece sólido o suficiente para justificar comprometimento profundo. Trabalha para se manter. Não acredita que esforço garantirá estabilidade.
Hierarquias confusas o irritam. Discursos motivacionais o cansam. Chefias autoritárias são rapidamente descartadas — ele simplesmente sai. Não luta para mudar estruturas. Prefere se adaptar, mesmo que isso signifique reduzir expectativas.
A inteligência artificial está presente em quase tudo o que João faz. Ele estuda com IA, escreve com IA, organiza decisões com IA e até ensaia conversas difíceis com ajuda de algoritmos. Não vê isso como problema — é apenas o jeito como sempre foi.
O custo aparece em silêncio: João pensa menos antes de agir.
Tolera pouco o esforço mental prolongado. Diante de escolhas complexas, terceiriza. Diante de dúvidas existenciais, evita.
Socialmente, João tem poucos amigos, relações antigas e bem controladas. Ambientes novos o cansam. Conflitos presenciais o travam. Negociações difíceis são adiadas. Relações afetivas existem, mas raramente amadurecem — não por falta de sentimento, mas por baixa tolerância ao desgaste emocional que toda relação real exige.
Com os pais, mantém proximidade. Há diálogo, apoio e presença. Mas também há dependência prolongada. Autonomia sempre foi incentivada no discurso, mas pouco exigida na prática. João sabe conversar sobre seus problemas, mas tem dificuldade em resolvê-los sem ajuda.
Sobre o futuro, João não é pessimista — mas também não é esperançoso.
Não acredita em progresso. Não acredita em colapso total. Acredita em adaptação constante. Seu objetivo não é transformar o mundo, nem se destacar nele. É não colapsar.
João não é um adulto fraco.
Também não é um adulto forte nos moldes tradicionais.
É um adulto funcional, emocionalmente consciente e tecnologicamente competente.
Mas cansado cedo. Pouco tolerante ao desconforto. Dependente de sistemas assistidos. E ainda aprendendo algo que gerações anteriores aprenderam cedo: sustentar decisões difíceis sem mediação constante.
João não é um fracasso individual.
Ele é um produto coerente do mundo que o formou.
Mas peraí . . .
E se a Geração Beta chutar o balde? E se, ciente das perdas ocasionados por um mundo obcecado por tecnologia, essa geração começar um movimento contrário? Isso pode acontecer? Pode sim, e nossa próxima conversa será exatamente sobre isso.









