As absurdas coincidências dos gêmeos Jim e o poder da genética

Os gêmeos separados no nascimento com vidas idênticas

O que eu tenho para contar hoje parece até ficção — mas é uma história real. E bastante impressionante.

Ela tem a ver com incríveis coincidências que marcaram as vidas dos gêmeos James Lewis e James Springer, dos Estados Unidos.

Após conhecê-las, é inevitável pensar sobre o quanto a genética influencia nossa vida e nosso comportamento.

Ajeite-se da cadeira, na cama ou no sofá e me acompanhe nessa fascinante história dos irmãos Jim!

Separados ao nascer: o começo improvável

James Lewis e James Springer nasceram em 19 de agosto de 1940, em Painesville, Ohio, EUA.

Os irmãos gêmeos nasceram de uma mãe solteira e adolescente chamada Oscariana.

Embora sem um cônjuge e sem condições financeiras, Oscariana queria ficar com os meninos.

No entanto, Louise Smart, a parteira que auxiliou no parto dos gêmeos, convenceu Oscariana de que ela, sozinha e sem recursos, não conseguiria criar dois bebês. Disse que “ter gêmeos era demais para uma mãe solteira” e que era melhor “dar uma chance melhor” para eles.

Nos EUA pós-Segunda Guerra, mães solteiras enfrentavam muito preconceito. Louise aproveitou-se desse fator, ameaçando que Oscariana seria vista como “imoral” e poderia perder os filhos para o Estado de qualquer forma.

A insistência de Louise não tinha nada a ver com empatia e altruísmo.

Acontece que, além de parteira, Louise Smart fazia parte de um esquema de adoção no mercado negro que, lamentavelmente, era comum nos EUA antes dos anos 1950.

A parteira e vigarista vendia bebês para casais inférteis por US$500 cada (cerca de R$10 mil hoje), falsificando papéis e sem aval judicial.

Oscariana acabou assinando os papéis para adoção sob coação, sem advogado ou apoio pois temia que retirassem dela seus bebês à força e os colocassem em orfanatos ruins.

Louise vendeu, então, os dois bebês recém-nascidos.

Um foi adotado pelos Lewis em Lima (Ohio), o outro pelos Springers, perto de Painesville. 

A mãe descobriu anos depois, mas as leis da época impediram a reunificação.

A vida dos gêmeos separados 

Embora separados, coincidências incríveis ligaram a vida destes gêmeos!

Sem saber um do outro, os dois receberam o nome “James” (cujo apelido é Jim) de seus pais adotivos.

Os gêmeos Jim dirigiam o mesmo carro

Ambos fumavam a mesma marca de cigarro (Salem), dirigiam o mesmo carro (Chevrolet azul- claro), tinham cães chamados Toy e trabalhavam meio período no gabinete de um xerife e em um McDonald’s.

Os dois irmãos passavam as férias no mesmo resort na Flórida, sofriam de dor de cabeça no mesmo dia da semana e até construíam casas parecidas com porões e oficinas idênticos!

Ambos se casaram primeiro com mulheres chamadas Linda, se divorciaram e depois casaram com Betty.

Um deles se separou de sua Betty, e a Betty do outro irmão James que se cuide!

E tem mais! Os dois gêmeos Jim tiveram filhos meninos e qual foi o nome deles?

James Alan (Lewis) e James Allan (Springer). 😮

Totalmente incrível e surpreendente, concorda?

Pelo menos duas perguntas ficam aqui:

  • Como eles se reencontraram e descobriram todas essas coincidências? E a mais intrigante,
  • O que explica tais assombrosas coincidências?

O reencontro dos irmãos Jim

O reencontro de James Lewis e James Springer não foi por acaso completo, teve um empurrão importante da curiosidade de um deles.

Acontece que James Springer sempre soube que tinha um irmão gêmeo, pois a família adotiva contou isso.

Já adulto, ele decidiu procurar registros da adoção no tribunal do condado. E encontrou!

Então, em 1979, aos 39 anos, em Ohio, finalmente os irmãos Jim se reencontraram!

O reencontro dos gêmeos Jim

O primeiro encontro foi descrito como algo surreal — como se estivessem olhando para um espelho que vivia outra vida.

Eles se cumprimentaram com um aperto de mãos rígido, depois se abraçaram e caíram na gargalhada. Jim Springer (um dos gêmeos) recordou: “Olhei nos olhos dele e vi um reflexo de mim mesmo. Queria gritar ou chorar, mas tudo o que consegui fazer foi rir.”

Apesar de serem estranhos até então, Springer disse que não se sentiu como se estivesse conhecendo um estranho, era como se já se conhecessem. Ele mencionou em entrevistas que sempre havia sentido um “vazio” na vida antes do reencontro.

Enquanto conversavam e descobriam as semelhanças absurdas (nomes das esposas, filhos, cachorros, hábitos, até o mesmo tipo de carro e praia de férias), eles ficaram chocados. 

Springer comentou: “Isso está realmente explodindo nossas mentes. Inacreditável. É estranho. É completamente assustador.” 

Lewis completou: “Nós até usamos a mesma gíria. Muitas vezes eu começo a dizer algo e ele termina!”

Os gêmeos Jim participaram de um programa de TV e ganharam muita visibilidade na mídia durante um certo período

Eles também deram entrevistas na TV americana logo após o reencontro (como no The Tonight Show, com Johnny Carson), onde descreveram o encontro como “estranho, mas fantástico” e “muito próximo desde o início”. Sentiram uma ligação imediata, como se nunca tivessem sido separados, e riram muito ao comparar as vidas paralelas.

Fatores que vão além da genética

O caso dos irmãos Jim foi o gatilho para o maior estudo já feito sobre o comportamento de gêmeos que são criados separados: o Minnesota Study of Twins Reared Apart (MISTRA), iniciado em 1979 pela Universidade de Minnesota sob liderança de Thomas Bouchard.

Cientistas que analisaram as fantásticas coincidências entre as vidas dos irmãos Jim identificaram pelo menos dois pontos que podem explicar questões que estão longe de serem casualidades, como casar-se com mulheres do mesmo nome, escolher a mesma raça do cachorro e dar o mesmo nome para o cãozinho!

  1. Probabilidade + contexto cultural

Nomes como “Linda” e “Betty” eram muito comuns na época nos EUA. “Linda” foi um dos nomes mais populares dos EUA nos anos 1940–50 (chegou a ser #1 por vários anos).

Acerca do nome do cachorro, nomes simples e genéricos para pets eram comuns. “Toy” não era um nome raro ou excêntrico naquele contexto.

Também, ambos cresceram em contextos de classe média/trabalhadora no Meio-Oeste americano. Isso traz padrões bem específicos, como fumar; realizar trabalhos manuais (como a carpintaria); e beber cerveja de marcas locais/populares era padrão. Na época não existiam tantas opções como temos hoje.

Ou seja, os pesquisadores explicaram que várias coincidências vêm de um cardápio cultural limitado.

Essas coincidências não anulam o fator genético. Elas apenas mostram que algumas escolhas que parecem incríveis são, na verdade, feitas dentro de um conjunto limitado de opções culturais.

  1. Tendências genéticas influenciam escolhas indiretas

Genes não dizem “case com alguém chamado Linda”, mas podem influenciar o tipo de personalidade que a pessoa acha atraente, o estilo de vida que ela busca e os ambientes que frequenta.

Se duas pessoas têm tendências internas parecidas, elas tendem a valorizar características semelhantes nos outros. É por isso que, por exemplo, uma pessoa mais ansiosa e organizada tende a se sentir atraída por alguém estável, previsível.

E sobre os ambientes que a pessoa frequenta, aqui entra o conceito de correlação gene-ambiente: buscamos ambientes que combinam conosco, evitamos os que nos causam desconforto e nosso jeito de ser provoca respostas do ambiente. Por exemplo, alguém comunicativo fatalmente recebe mais interação.

Isso tudo se retroalimenta:

1. Você tem uma tendência genética
2. Escolhe certos ambientes
3. Conhece certos tipos de pessoas
4. Reforça suas preferências

Com o tempo, isso parece destino. Mas não é. Trata-se de um processo acumulativo.

No caso dos gêmeos Jim, a fórmula ficou simples: genes muito semelhantes + mundo com opções semelhantes = vidas paralelas

Fatores que tem tudo a ver com a genética

O mesmo estudo mencionado antes, o Minnesota Study of Twins Reared Apart, enumerou pontos que só a mesma genética pode justificar.  

O estudo concluiu que . . .

Inteligência (QI): Gêmeos idênticos separados ao nascer têm QI tão semelhante quanto os criados juntos.

Personalidade, temperamento e interesses: Gêmeos idênticos separados são tão parecidos em traços como extroversão, neuroticismo, hobbies, preferências ocupacionais e atitudes sociais quanto os criados juntos. Ou seja, o fato de crescer na mesma casa, com os mesmos pais tem influência menor em comparação com fatores genéticos em muitos desses traços na idade adulta.

Outros comportamentos: Influência genética forte também em religiosidade, orientações políticas, satisfação no trabalho, até hábitos pequenos (como roer unhas ou estilo de escrever bilhetes de amor). Praticamente todo traço psicológico medido mostrou componente genético significativo (geralmente 40-70%).

De fato, os genes não determinam tudo, mas moldam o cérebro, as preferências e o temperamento de tal jeito que as pessoas buscam ou criam ambientes semelhantes. É a tal “correlação gene-ambiente” que comentamos antes.

Depois do reencontro em 1979, Jim Lewis e Jim Springer mantiveram contato e desenvolveram uma relação próxima. A conexão emocional que sentiram logo no primeiro encontro se transformou em uma amizade duradoura.

Em 2015 (quando tinham cerca de 75 anos), relatos indicavam que continuavam em contato regular. Jim Lewis morava em Elida (Ohio) e Jim Springer em Dayton (Ohio), cidades relativamente próximas, o que facilitava os encontros.  

Eles compartilhavam histórias, participavam de eventos relacionados ao estudo dos gêmeos e mantinham uma ligação que ia além da curiosidade inicial — era como se compensassem o tempo perdido.

O caso dos irmãos Jim nos lembra de algo curioso: até que ponto nossas escolhas são realmente nossas e até que ponto já viemos inclinados a fazê-las?

E você… já percebeu coincidências estranhas na sua própria vida?

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