Hwang Dong-man e o homem das mil portas abertas

Hwang Dong-man Byeon Eu-ah de A gente tenta

E se tivéssemos um relógio de emoções que identificasse e nos informasse exatamente o que estamos sentindo?

Para mim isso seria extremamente útil e interessante!

Não sei se acontece contigo também, mas por vezes tenho dificuldade de entender o que estou sentindo. E o mesmo acontece sobre explicar meus sentimentos. Se um relógio apontasse exatamente que estou com raiva, ansiedade, frustração, empolgação e alegria, seria muito mais fácil de eu me compreender e entender o que exatamente preciso combater.

Pois bem, na série coreana “A gente tenta” (We Are All Trying Here, 2026), os personagens principais da trama — Hwang Dong-man e Byeon Eun-a — contam com esse dispositivo que detecta sentimentos e emoções. 

Eu recentemente comecei o episódio quatro, então tem muita história para se desenrolar. Mas o pouco que assisti me fez refletir bastante sobre algumas coisas que quero compartilhar contigo.

Mas antes, um contexto

A roteirista de “A gente tenta” é Park Hae-young. No meu ponto de vista, não há outra roteirista que capte com tanta sensibilidade a essência e a fragilidade humana quanto ela. Tudo o que ela escreve tem meu coração antes mesmo de eu contemplar. É uma espécie de confiança intuitiva que sempre será genial.

Ela é a mente brilhante por detrás de “My Mister”, “Meu Diário para a Liberdade” e “Outra Senhorita Oh”, que eu tanto amo, como vocês podem ver aqui.

Hae-young tem a capacidade singular de nos trazer à tona sentimentos e comportamentos comuns ao ser humano sobre os quais não costumamos racionalizar. Quiçá perceber.

Por exemplo, em “A gente tenta”, em certo momento Hwang Dong-man se diz tão depressivo à ponto de não conseguir sentar. Que meticulosidade a dela! Parece banal, mas você já se sentiu tão desgastado emocionalmente a ponto de não encontrar ânimo nem para chegar ao sofá ou quem sabe tão tenso que seu inconsciente não te permite o simples ato de se recostar na cadeira?

Em determinada cena, Byeon Eun-a comenta sobre feridas emocionais latentes desde a infância e sobre como estar apaixonado por alguém pode deixá-las adormecidas. Mas quando o relacionamento termina, você descobre que elas seguem exatamente lá onde estavam. 

E não é verdade? Quando algo muito bom acontece conosco, parece que não há mais depressão, tampouco crises de ansiedade. Mas a ruptura desse sentimento é acompanhada de todas as emoções que ele estava escondendo atrás da porta de um quarto extremamente bagunçado.

E não posso deixar de mencionar a naturalidade dos diálogos dos personagens desta roteirista! Em dado momento do episódio três, Hwang Dong-man comenta ter chegado exausto depois de trabalhar o dia inteiro e também à noite. Então ele disse: “Mal cheguei em casa e desabei, mas precisava ver o celular. Eu acho que vou olhar o celular até no leito da morte.” Essa parte do diálogo fez algum sentido no contexto? Não. Mas tornou aquele momento super humanizado? Tornou.

Eu costumo assistir pelo menos duas vezes as séries escritas por Hae-young para captar a profundidade das produções e extrair o que quero aplicar em minha vida. Assisto a primeira vez, leio sobre a obra, e assisto uma segunda vez com informações elucidadas e meu coração fica muito bem alimentado!

Então, meus amigos, sempre que souberem que Park Hae-young é a mão que segura a caneta que escreve o roteiro, saibam que aí reside uma obra de arte.

Hwang Dong-man, o homem das mil portas abertas

Hwang Dong-man passou 20 anos tentando fazer sua estreia como diretor de cinema enquanto assistia a seus colegas se tornarem bem-sucedidos. Perceber seus amigos alcançando o sucesso lhe causa uma dor intensa, sentimentos de inutilidade e ansiedade.

Ansiedade. Essa é a melhor palavra que define Hwang Dong-man. Ele fala compulsivamente, sabe por quê? “Quando a ansiedade vem de repente, eu começo a falar sem parar para afastá-la”. Ele teme o silêncio, tem medo que a verdade apareça nessa lacuna de sons e palavras e revele que ele é uma pessoa inútil. 

Este personagem tão denso e profundo usa o clima como uma âncora calmante e constante para suavizar sua ansiedade profunda. Quando observa as nuvens no céu, o vento no ar, a grama, as flores e os pássaros, ele sabe que ainda há esperança, que sua vida e seus sonhos não acabaram completamente. “Enquanto o clima existir, o mundo não acabou”.

Hwang Dong-man é intenso e teatral. É uma mistura de humor tragicômico. Ele chega ao ponto de usar um colar cervical e um gesso no braço mesmo sem ter fratura alguma. É como se ele quisesse mostrar externamente o quão “quebrado” está por dentro. Ou como uma “muleta” que lhe dê a licença de não produzir e de não ser cobrado, um sinal visual do quão paralisado ele está pelo medo de falhar novamente.

Desde o início da série, Hwang Dong-man aparece usando o relógio de emoções, um dispositivo capaz de monitorar e categorizar o seu estado mental. É a forma como ele encontrou de organizar a própria bagunça interna e, aparentemente, ter o controle sobre algo em sua vida. Ao transformar sentimentos abstratos como ansiedade, inveja e melancolia em dados categorizados em um gráfico, ele sente que tem alguma rédea sobre si mesmo.

O relógio de emoções e a análise comportamental que o uso do mesmo lhe permite ter, fez Hwang Dong-man classificar a si mesmo como uma pessoa destrutiva. Ele conta isso de maneira hilária e expressiva no episódio dois, numa conversa muito fluida e agradável com Byeon Eun-a.

Nesta situação, Hwang Dong-man relembra um episódio quando soube de um atentado com tiros e a presença das forças especiais militares e pensou: “Se aqueles líderes morressem, o mundo finalmente ia desmoronar.” Ele achava estar em choque, mas ao olhar para o relógio, sabe qual emoção foi registrada? “Entusiasmo”.

Então, as forças especiais resgataram todos e pegaram os terroristas vivos. O que apareceu no relógio? “Alívio” talvez? “Decepção”.

Hwang Dong-man nem de longe é um psicopata, pelo contrário, ele é um homem bondoso, intenso e gentil. 

Mas confrontar-se com a natureza escancarada daqueles sentimentos não tão virtuosos não lhe trouxe desespero nem constrangimento, ele simplesmente aceitou-os e parou de fingir o que ele não está sentindo. Ele deixou de lado a máscara social que se conforma com a previsibilidade do comportamento humano.

Vou te dar um exemplo:

Ver o fracasso do filme de um colega de trabalho que ele classifica como “alguém próximo”, e não um amigo, lhe trouxe satisfação. Ao invés do incômodo da contemplação desse sentimento, Hwang Dong-man começou a sentir prazer, sem culpa, pela desgraça alheia. Comemorou dançando e desfrutando de uma refeição gostosa.

Foram essas confissões que fizeram Byeon Eun-a classificar Hwang Dong-man como “alguém com mil portas abertas”. É como se todos nós tivéssemos mil portas por dentro. As pessoas que abrem uma ou duas dessas portas são para elas “chatas e entediantes”. No entanto, é como se Hwang Dong-man tivesse essas mil portas abertas, o que o torna um homem “cru” e caloroso.

Deixe ventilar

Eu realmente fiquei reflexiva com esses poucos episódios que assisti e com a complexidade de Hwang Dong-man.

A tentativa de alcançarmos padrões de comportamentos pode ser um tanto quanto exaustiva e sufocante.

A gente tem medo de “abrir portas” e as pessoas não gostarem mais da gente. Sim, isso pode acontecer. No caso de Hwang Dong-man, a sua transparência fez todos seus amigos (exceto um) se afastarem dele a ponto de colocarem numa placa que a presença dele no espaço onde eles costumavam se reunir era proibida.

Mas foi essa mesma abertura de portas que fez ele perceber que eles não eram relevantes na sua vida.

Abrir portas me remete à sentimentos de liberdade, pra ti também? Me vem à mente de ventilação e alívio.

Às vezes reprimimos emoções não tão louváveis para parecermos pessoas boas.

Concordamos com uma opinião que não é exatamente a nossa.
Rimos de algo que nem achamos engraçado.
Vamos a lugares onde não gostaríamos de estar.
Falamos quando preferíamos permanecer em silêncio.
E não expressamos o nosso ponto de vista.

Tudo isso por quê? Apenas para sermos aceitos e sermos queridos por todos.

A gente não é tão ruim como nossa mente costuma nos julgar. Mas a gente também não é tão legal quanto nosso cachorro pensa que somos.

A verdade é que certos pensamentos não definem necessariamente nosso caráter e há uma grande diferença entre sentir algo e alimentar algo.

Não, não devemos deixar que a podridão que existe em cada um de nós se manifeste tampouco devemos sair falando o que está em nossos pensamentos, sem filtro e sem noção.

Mas nos permitir reconhecer e contemplar profundamente emoções negativas e nos proibir de tentar ser o que não somos, falar o que não sentimos e aceitar o que recusamos nos faça abrir portas que revelem particularidades íntimas que outrora desconhecíamos. E talvez você goste muito de sua versão mais “crua”.

Provavelmente eu voltarei pelo menos mais uma vez por aqui para comentar as camadas tão singulares de “A gente tenta”. Indico com tranquilidade que você assista essa série. As conversas entre os protagonistas são significativas a ponto de despertar a tua curiosidade de saber o que há por detrás de certas portas que você nunca ousou chegar perto.

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