A Coreia do Sul foi libertada do domínio colonial japonês em 15 de agosto de 1945. Cerca de três anos mais tarde, em 1948, a República foi oficialmente proclamada e, após 1953, o sistema de serviço militar obrigatório consolidou-se no país.
A cultura militar sul-coreana herdou elementos da ocupação japonesa, incluindo uma hierarquia rígida, ênfase na “perseverança mental” através de humilhações e violência física, e um sistema de senioridade, ou seja, juniores respeitam seniores sobre juniores. Eles mencionam esses elementos para normalizar o abuso de poder dentro dos quarteis militares sul-coreanos.
Vamos verificar os tipos de abusos que jovens sul-coreanos sofrem em tais ambientes estonteanetemente opressores e anárquicos. Tais relatos incluem conteúdo sensível, logo, se isso pode abalar seu estado emocional, sugiro que leia algo mais leve, como esse post aqui, combinado?
Tipos de abusos documentados no exército sul-coreano
Os abusos no exército sul-coreano abrangem uma ampla gama de violações físicas, psicológicas e sexuais.
Logo ao entrarem no serviço militar, os sul-coreanos sofrem hazing.
Hazing é o nome dado a práticas abusivas de iniciação, o equivalente ao “trote” que conhecemos aqui no Brasil. Esse ritual acontece principalmente entre seniores (sunbae) e juniores (hubae), baseado na hierarquia rígida sunbae-hubae.
Os abusos incluem:
- Violência física (espancamentos, chutes, uso de objetos aquecidos, forçar posições dolorosas como “cavalo de ferro”, uma posição de agachamento como em artes marciais, por horas)
- Privação de sono (acordar no meio da noite para treinamento extra ou ser forçado a ficar em pé)
- Humilhações (forçar a comer insetos, lamber saliva ou fleuma do chão, comer quantidades absurdas de comida até vomitar, privação de sono ou comida)
- Assédio verbal constante (“você é fraco”, xingamentos, zombaria por sotaque ou aparência)
- Abusos sexuais ou humilhações de cunho sexual (simular atos sexuais, exposição forçada ou comentários degradantes)
- Bullying psicológico (isolamento, pressão para esconder orientação sexual, etc.)

Tudo isso é feito sob o pretexto de “manter a disciplina militar” (군기 잡기) ou “endurecer o soldado” para a possível guerra contra a Coreia do Norte.
É um ciclo vicioso: quem sofreu quando era junior vira agressor depois.
Um caso que infelizmente ficou conhecido por sua brutalidade é o do soldado Yoon Seung-joo, da 28ª Divisão de Infantaria (Yeoncheon, Gyeonggi-do) de 2014.

Yoon Seung-joo sofreu espancamentos diários por mais de um mês (chutes, socos no peito e corpo) e era forçado a manter a posição de “cavalo de ferro” por horas seguidas.
Também, passaram pomada irritante em seus órgãos genitais, negavam-lhe sono e comida ou faziam-no comer deliberadamente.
Em certa ocasião, Yoon Seung-joo foi forçado a comer rapidamente e era espancado enquanto comia. Durante este episódio, o jovem de apenas 23 anos, engasgou e morreu por asfixia combinada com exaustão.
O corpo de Yoon Seung-joo estava coberto de hematomas e cortes, lesões graves em órgãos internos, costelas quebradas, baço rompido, sinais de exaustão extrema e choque secundário causado pela violência prolongada.
Essas marcas no corpo foram o que expuseram o caso pela CMHRK, o Centro de Direitos Militares da Coreia do Sul, e geraram revolta nacional em 2014.
As toturas físicas e psicológicas não terminam após o período de hazing.
Relatos frequentes mencionam treinamentos simulados de captura que envolvem amarração e sufocamento, além de bullying racial ou baseado em aparência.
No caso de soldados LGBT+, o abuso frequentemente envolve outing (expor publicamente a orientação sexual), agressões sexuais coletivas e pressão para esconder a orientação sexual.
No contexto militar sul-coreano, muitos soldados LGBT+ tentam esconder sua orientação por medo do ambiente hostil e também por receio do Artigo 92-6 da constituição sul-coreana, que criminaliza relações sexuais entre homens no quartel militar.
Em um relatório de 2019 da Amnesty International, um sul-coreano homossexual que usou o pseudônimo Jeram conta que era apalpado e tocado por seniores que suspeitavam ou descobriram sua orientação.
Quando resistia, era punido com turnos noturnos extras e limpeza de fossas sépticas. O abuso o deixou doente fisicamente e mentalmente, tanto que lhe ofereceram internação psiquiátrica ou isolamento e o jovem tentou suicídio.
Outras tragédias que vieram à tona e tantas outras nunca mencionadas . . .
Em junho de 2005, um soldado de 22 anos na 28ª Divisão de Infantaria, vítima de hazing intenso, matou oito colegas em um tiroteio em um posto de guarda na Zona Desmilitarizada. Em julho de 2011 e junho de 2014 ocorreram outros tiroteios em unidades de fuzileiros e em Gangwon-do, ligados à vingança por bullying.
Em 2017, o soldado Goh cometeu suicídio pulando de um prédio na unidade onde servia. Ele era um soldado de infantaria e sofria abuso repetido por seniores, como espancamentos, humilhações verbais e psicológicas
Em 2021, uma sargento-mestre da Força Aérea morreu por suicídio após assédio sexual e bullying prolongado por um colega de mesma patente; a família acusou a unidade de acobertamento, o que levou à renúncia do Chefe do Estado-Maior da Força Aérea.
Casos recentes mantêm o padrão.
Em 2023, um conscrito da Força Aérea em Paju tentou suicídio após bullying. Em 2025, um soldado de ascendência norte-coreana e chinesa pulou de um prédio militar após bullying racial; em agosto, um staff sergeant da 15ª Divisão cometeu suicídio com arma de fogo após abuso verbal por superiores, levando a investigação criminal civil. Em setembro de 2025, um capitão deixou uma nota suicida detalhando bullying no trabalho, e outro sargento morreu com relatos de ostracismo (exclusão social) e abuso suprimidos.
Sim, conforme os dois últimos casos relatados, mesmo militares de posições superiores, como capitães e sargentos, sofrem opressão. Embora seja mais comum contra juniores, oficiais e suboficiais também enfrentam:
- Abuso de autoridade de superiores ou pressão de pares.
- Ostracismo coletivo, humilhações verbais e isolamento.
- Cultura de “manter a disciplina” que se volta contra qualquer um que “não se encaixe”.
- Medo de denunciar (piora a carreira, retaliação, etc.).
Relatórios da NHRCK, a Comissão Nacional dos Direitos Humanos da Coreia do Sul, e da CMHRK mostram que o problema é cultural e sistêmico, afetando todos os níveis. Casos de capitães e sargentos em 2025 reforçam que ninguém está totalmente protegido, especialmente em unidades com cultura tóxica forte.
Estatísticas e impacto nos suicídios de militares
Os suicídios representam a principal causa de mortes não-combate no exército sul-coreano.
Dados do Ministério da Defesa Nacional mostram que, entre 1993 e 2019, os suicídios variaram de 51 a 155 por ano, correspondendo a cerca de 60–65% das mortes totais em muitos anos.
Em 2019, foram 62 suicídios; em 2020, o número caiu para 42 (recorde baixo), mas subiu para 83 em 2021. Em 2023, foram registrados 22 suicídios apenas no primeiro semestre; e em 2024, 20 no primeiro semestre.
Uma pesquisa de 2019 com 1.086 soldados ativos (exército, marinha e força aérea) revelou que 17,6% sofreram hazing, com 18,7% dos afetados relatando ideação suicida.
Muitos casos não são reportados por medo de retaliação, transferência punitiva ou piora do abuso. E para piorar, o Ministério da Defesa às vezes nega a existência de bullying em unidades específicas. Em 2025–2026, o CMHRK continuou a ligar suicídios recentes a abusos persistentes.
O que acontece com as celebridades que prestam serviço militar?
Uma vez que o serviço militar é obrigatório para os homens sul-coreanos, atores e idols do k-pop não sofrem nenhum tipo de isenção no alistamento.
Mas por conta da fama e visibilidade dessas pessoas, eles tem um tratamento especial.
Muitos idols k-pop e atores são colocados em unidades mais leves, como bandas militares, unidades de relações públicas, serviço social ou até como embaixadores militares. Isso significa menos treinamento de combate, horários mais flexíveis e melhor qualidade de vida.
Eles também recebem mais folgas, proteção de comandantes (para evitar escândalos públicos) e atenção da mídia na hora da dispensa.
Mesmo com essas vantagens, eles enfrentam problemas que acontecem justamente por serem famosos, como:
- Assédio e violações de privacidade: fotos tiradas no chuveiro, celulares contrabandeados, colegas vendendo imagens para a imprensa ou fansites.
- Bullying por inveja ou ciúme: seniores ou colegas comuns podem humilhá-los verbalmente (“você acha que é especial só porque é famoso?”).
- Pressão extra: superiores pedem apresentações gratuitas, favores ou que eles performem para a unidade.
- Isolamento ou transferências por saúde mental: vários casos documentados de idols que precisaram ser afastados ou transferidos por estresse e assédio.
Alguns exemplos recentes e conhecidos são relatos como o do G-Dragon da BIGBANG. Ele sofreu tanto assédio que precisou ser isolado em uma unidade separada para evitar problemas.
Taemin, do SHINee, relatou problemas mentais graves durante o serviço e foi transferido para serviço público (não-combatente) por causa do assédio.
Há fontes que relatam que Woozi, do SEVENTEEN, foi pressionado por um superior a fim de que ele organizasse uma apresentação de casamento gratuita.
Atores como Song Kang, Lee Do-hyun, Hwang Min-hyun e outros que serviram ou estão servindo em 2025-2026 não relatam casos graves de espancamento, mas comentam a pressão psicológica e a saudade do trabalho artístico.
E o governo, não faz nada?
Desde 2011, o Ministério da Defesa emitiu decretos para erradicar o hazing, criou o Defense Help Call para denúncias anônimas e estabeleceu um Centro de Direitos Humanos Militares. Medidas incluem workshops de educação moral, investigações policiais militares e promessas de punições mais rigorosas.
Em 2021, a Netflix lançou a série D.P. (Deserter Pursuit), inspirada em casos reais de 2014, o que reacendeu o debate público e pressionou o governo.
No entanto, as reformas são consideradas insuficientes.
O CMHRK e a NHRCK criticam a falta de transparência, subnotificação e resistência cultural.
Em 2022, a Suprema Corte limitou sua aplicação do Artigo 92-6 a situações fora de base e fora de serviço, mas a Corte Constitucional manteve a lei em 2023 pela quarta vez.
Situação atual e desafios persistentes
Apesar da redução oficial nos suicídios, o problema persiste.
Em 2024–2025, o CMHRK relatou que bullying e violência ainda contribuem para mortes, com cerca de 60% das mortes não-combate no exército advindas de suicídios, e estudos confirmam que abuso verbal, social e psicológico continua sendo um fator forte.
Em abril de 2026, a NHRCK investigou a Academia da Força Aérea e confirmou que instrutores forçaram candidatos a comer quantidades excessivas de comida, negaram refeições, xingaram e humilharam durante o treinamento básico.
ONGs como o CMHRK continuam recebendo denúncias anônimas e pressionando por reformas estruturais, enquanto a mídia sul-coreana (Korea Herald, Korea Times, Yonhap) mantém o tema em evidência.
O consenso entre especialistas é que, sem uma mudança cultural profunda, punições mais severas e proteção real contra retaliação, lamentavelmente o ciclo de abusos continuará a custar vidas.








