Com um nome globalmente reconhecido, Vincent van Gogh criou uma arte emocional e visualmente impactante.
Quando você conhece a história deste artista — a infância e adolescência de poucas realizações, os fracassos amorosos, a impetuosidade que prejudicava seus relacionamentos — um mundo totalmente novo da arte é desvendado. Isso porque a obra e a história de van Gogh convidam o espectador à uma intriga, uma inclinação para olhar um pouco mais, talvez encontrando algo novo, alguma resposta ou explicação, ao olhar novamente uma mesma arte.
Isso também resulta num questionamento que pode ser que você já tenha encontrado nos seus pensamentos: o que faz da arte de van Gogh algo tão especial?
Um estilo peculiar de produzir arte
Vincent era um artista complexo. Ele foi incompreendido e enfrentou muitas dificuldades em sua vida, externamente e dentro de si mesmo, mas ele também era um homem disciplinado e um lutador por sua paixão.
Em grande parte autodidata, van Gogh produziu mais de 2.000 pinturas a óleo, aquarelas, desenhos e esboços, que se tornaram procurados apenas após sua morte.
O estilo da pintura de van Gogh que conhecemos foi desenvolvido quando ele se mudou para Paris, em 1886.
Lá, ele foi exposto aos estilos de pintura impressionista e neo-impressionista, que usam combinações harmoniosas de cores e pinceladas curtas.
Esta técnica mudou o estilo de van Gogh, que passou a produzir suas artes com pinceladas mais soltas e cores mais brilhantes. Esse estilo ficou conhecido como Pós-Impressionismo — um estilo de pintura que se concentrava na expressão das emoções do artista e nas respostas psicológicas ao mundo, usando cores ousadas e imagens frequentemente simbólicas.
Ao mesmo tempo que são equilibradas, as telas de van Gogh são expressivas. Parece que as pinceladas estão em movimento. As cenas escolhidas que, para nós pareceriam mundanas, ganham uma interpretação idílica em suas telas.
Van Gogh encontrou beleza na noite; para ele, a noite é “muito mais viva e ricamente colorida do que o dia”. Ele pintou uma série de peças da noite chamada “Série Noturna”, e de alguma forma criou luminescência na ausência de luz solar.
Seus contemporâneos no Pós-Impressionismo também tentaram representar a noite.
Artistas como Cézanne, Seurat e Gauguin eram menos desinibidos em sua expressão e mais metódicos. Ao representarem a escuridão da noite, eles eram mais realistas; ao passo que van Gogh apresentava uma representação viva e imaginativa do cenário. Suas ousadas e dramáticas pinceladas expressavam uma dose de emoção e movimento que são incomparáveis.
A expressividade de “A Noite Estrelada”
O que falamos até agora você pode sentir ao contemplar “A Noite Estrelada”, onde encontramos padrões ondulantes, uma sensação de movimento, objetos simbólicos e uma expressão onírica da natureza.
A cena retrata o céu noturno que cobre três quartos da tela, uma pequena vila de casas e uma igreja abaixo dele. Esta paisagem noturna era a vista de van Gogh de seu quarto voltado para o leste no asilo de Saint-Paul, em Saint-Rémy, França, onde ele se internou voluntariamente após um colapso emocional em 1888 que resultou na automutilação de sua orelha esquerda.
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Lá, van Gogh buscou descanso enquanto continuava a criar arte. Ele reproduziu esta vista 21 vezes de memória, omitindo as barras de ferro da janela. Embora a cena retrate a noite, a pintura foi criada em várias sessões durante o dia, o que era contrário à sua preferência usual uma vez que van Gogh gostava de pintar assuntos à sua frente ao ar livre e no momento, em vez de de memória.
A vila pitoresca na peça é baseada em outras vistas da memória de van Gogh, uma vez que este local não constava no cenário real. Inclui uma fileira de casas humildes e uma igreja, com quadrados amarelos brilhantes que sugerem as luzes acolhedoras de lares pacíficos. Cria um momento de calma para o espectador em meio à ondulação da pintura.
A torre pontiaguda da igreja, uma característica arquitetônica não comumente vista na França, lembra as memórias de van Gogh de sua Holanda natal. Ao fundo, há uma onda de montanhas azul-escuras que é, na verdade, uma vista da cordilheira dos Alpilles. À esquerda, em primeiro plano, há ciprestes que estão colocados a uma distância muito mais próxima do que na realidade. Eles se assemelham a chamas, conectando o chão ao céu.
Simbolicamente, os ciprestes estão associados à morte nas culturas europeias e mediterrâneas, mas para van Gogh a morte não era sinistra. Poderia, em vez disso, ser vista como uma ponte entre a vida, como vista na terra; e a morte, representada pelo céu.
É perceptível que a escolha das cores e o peso e comprimento das pinceladas incutem uma sensação de movimento em cada canto da tela, mais proeminentemente no céu noturno.
A energia vibrante das linhas circulares em espiral no céu pode ser sentida. No canto superior direito, a lua brilha intensamente, cercada por linhas amarelas e azuis vívidas que fazem parecer que está em órbita.
Em uma carta escrita à sua irmã Willemien, ele disse:
“Muitas vezes me parece que a noite é ainda mais ricamente colorida do que o dia, colorida com os mais intensos violetas, azuis e verdes. Se você olhar com atenção, verá que algumas estrelas são amareladas, outras têm um brilho rosa, verde, azul-miosótis. E sem insistir no assunto, fica claro que pintar um céu estrelado não é nem de perto suficiente para colocar manchas brancas sobre o azul-escuro.”
O personagem principal aqui é a noite, mais especificamente um momento silencioso na noite, que nos permite desfrutar de uma certa esperança em meio à solidão. Esse sentimento está presente em muitas das obras de Vincent van Gogh: magníficas representações de cenas, de outra forma banais, que nos deixam maravilhados.
Seu estilo individual de pintura nos hipnotiza instantaneamente. Cada peça nos cativa com sua vibração e nos acalma com sua beleza.
Eterno legado de uma breve vida
A carreira artística de van Gogh foi extremamente curta, durando apenas de 1880 a 1890.
No início, ele estudou desenho na academia de Bruxelas e depois se mudou para a igreja de seu pai em Etten, na Holanda. Um ano depois, começou a trabalhar a partir da natureza, principalmente desenhando e pintando com aquarela enquanto trabalhava para se tornar mais tecnicamente proficiente.
Van Gogh era um artista autodidata.
Ele visitava museus e encontrava outros artistas para aprender. Sua compreensão dos estilos artísticos e das possibilidades das pinturas evoluiu rapidamente.
Ele era fascinado pela paleta e pincelada de Peter Paul Rubens e pelas xilogravuras japonesas.
Enquanto ficava com seu irmão Theo em Paris, ele se inspirou nos impressionistas, incluindo Camille Pissarro, Claude Monet e Paul Gauguin.
Embora Van Gogh tenha tentado muitos estilos nos dez anos em que foi artista, em 1888 ele havia desenvolvido sua própria forma de criar uma arte: um intenso colorido, incomparavelmente à frente de seu tempo. A energia que ele trouxe para a tela inspirou gerações de artistas que vieram depois dele.
Então, afinal, o que faz a arte de van Gogh ser tão especial?
Talvez seja justamente essa capacidade de transformar dor em beleza sem esconder uma coisa nem a outra. Van Gogh não pintou para nos mostrar um mundo perfeito — ele pintou o mundo como o sentia, com toda a intensidade de suas turbulências internas, e ainda assim encontrou nele algo digno de ser celebrado.
É essa honestidade emocional, traduzida em cores vibrantes e pinceladas em movimento, que atravessa gerações e nos convida a olhar de novo, e de novo, sempre encontrando algo novo.
O verdadeiro legado de van Gogh está no fato de que não apenas vemos suas telas, nós as sentimos. E elas nos fazem lembrar que, até nos momentos mais silenciosos e solitários, existe uma beleza esperando para ser notada.









