Theo van Gogh: uma vida dedicada ao irmão Vincent

Theo van Gogh irmão de vincent van gogh
A história pouco contada de Theo van Gogh: o irmão que financiou Vincent, o sustentou emocionalmente e morreu apenas seis meses depois dele.

Se não fosse seu irmão mais novo, o mundo talvez nunca tivesse visto as famosas pinturas “A Noite Estrelada”, “Campo de Trigo com Corvos” ou “Girassóis”, obras do genial artista Vincent van Gogh,

Van Gogh morreu prematuramente aos 37 anos e durante toda a sua vida contou com a inabalável lealdade de seu irmão, Theodorus “Theo” van Gogh. O suporte emocional e financeiro que recebeu do irmão permitiu que Vincent criasse algumas das obras-primas mais duradouras do mundo. Por estes mas também por vários outros motivos, Theo merece ser lembrado e é exatamente isso que faremos na conversa de hoje.

A infância dos irmãos van Gogh

Theo van Gogh nasceu no sul da Holanda no dia primeiro de maio de 1857. Ele foi um dos seis filhos nascidos de Theodorus van Gogh e Anna Cornelia Carbentus. 

Seu pai era ministro da Igreja Reformada Holandesa, uma religião protestante fundada em 1571. Como ministro, ele não recebia um salário alto, mas a igreja cuidava das necessidades da família, fornxecendo uma casa, cozinheiros, um jardineiro, uma empregada e um cavalo com carruagem. 

Anna, sua mãe, é descrita por alguns historiadores como uma rigorosa mulher religiosa que costumava acompanhar o marido enquanto ele visitava seus paroquianos. 

O pai de Anna, Willem Carbentus, era um encadernador. Ele  recebeu a honra de encadernar a constituição de 1848 da Holanda, sendo chamado de “encadernador do Rei”. Talvez por causa de seu pai, Anna adorava ler e escrever cartas para seus amigos e familiares, algo que ela acabou passando para seus filhos, que trocaram centenas de cartas ao longo de suas vidas relativamente curtas.

Theo compartilhava a coloração de Vincent: belos cabelos ruivos e vibrantes olhos azuis que tendiam escurecer para um azul esverdeado.

Theo e Vincent estudaram originalmente na escola local. Porém, convencidos de que as crianças do campo estavam prejudicando as boas maneiras dos filhos, os pais dos meninos van Gogh contrataram uma governanta para ensiná-los em casa. 

Os irmãos van Gogh, que tinham quatro anos e um mês de diferença de idade, se tornaram próximos desde a infância, período que Theo relembrava com carinho ao mencionar as brincadeiras na casa da família em Zundert, na província de Brabant, na Holanda.

Após um de seus muitos episódios de doença mental, Vincent lembrou ternamente de seus pacíficos dias de infância: “Durante minha doença, vi novamente todos os cômodos da casa em Zundert, cada caminho, cada planta no jardim, a vista dos campos do lado de fora, os vizinhos, o cemitério, a igreja, nossa horta nos fundos, até um ninho de pega em uma acácia alta no cemitério.”

No entanto, os idílicos dias de infância dos apegados irmãos terminaram quando Vincent foi enviado para um internato em Zevenbergen, onde acredita-se que ele tenha sido desesperadamente infeliz.

>> Conheça aqui a infância e a história completa de Vincent van Gogh

O desenvolvimento humano e profissional de Theo van Gogh

Conforme conversamos em outra ocasião por aqui, o primeiro emprego de Vincent van Gogh foi aos 16 anos de idade, como estagiário da Goupil & Cie, uma empresa de comércio de obras de arte.

Em janeiro de 1873, antes de completar 16 anos, Theo se juntou ao irmão mais velho trabalhando na mesma empresa, tornando-se o funcionário mais jovem da Goupil & Cie.

Enquanto Theo prosperava na empresa de arte, seu irmão era cada vez mais mal visto aos olhos de seus empregadores, que reclamam do seu temperamento e sua falta de habilidade como vendedor. O estopim foi quando Vincet tirou férias sem pedir permissão, resultando em sua demissão em abril de 1876. 

Todos na família van Gogh sabiam que a empresa de arte não seria o futuro de Vincent. O próprio Theo escreveu: “Quando a maçã está madura, uma brisa suave a fará cair da árvore.” E foi isso mesmo o que aconteceu.

Vincent começou a trabalhar seriamente como artista em 1880, quando tinha 27 anos. Ele descobriu que isso o distraía de sua agitação interior, que se mostrava cada vez mais intensa. Ele escreveu: “Eu disse a mim mesmo: vou pegar meu lápis. Vou continuar com meu desenho. A partir daquele momento, tudo pareceu transformado para mim.” 

Enquanto Vincent preocupava a família por conta de seus comportamentos excêntricos e seu idiossincrático jeito de ser, Theo prosperava cada vez mais, construindo uma carreira de sucesso no mundo das empresas de arte. 

Theo van Gogh trabalhou em filiais da Goupil & Cie em Haia e Bruxelas, e foi eventualmente transferido para Paris, onde se encontrou na vanguarda da cena da arte contemporânea. Ele ajudou a trazer, entre outros, os artistas Claude Monet e Edgar Degas aos olhos admiradores do público. 

O irmão mais novo da família van Gogh foi descrito como alguém charmoso, diplomático e atencioso, palavras que nunca foram usadas em referência à Vincent.

Vincent passou por momentos de extrema pobreza e desleixo pessoal, quando não tomava banho e deixava a barba crescer. Preocupado com o irmão mais velho, Theo enviava-lhe dinheiro para comida e materiais de arte. Além da ajuda financeira, ele tentava apresentar Vincent a outros artistas contemporâneos para que ele pudesse formar algumas amizades com pessoas que compartilhavam seus interesses.

Um dos artistas que Theo apresentou a seu irmão foi Anthon van Rappard, um pintor holandês. Eles tiveram uma correspondência de quase cinco anos, que culminou num forte desentendimento, episódio que van Rappard lamentou profundamente. Em uma carta à mãe de Vincent após a morte do artista, van Rappard escreveu: “Quem quer que tivesse testemunhado esta existência de luta, esforço e tristeza não poderia deixar de sentir simpatia pelo homem que exigia tanto de si mesmo que arruinou corpo e mente. Ele pertencia à raça que produz os grandes artistas.”

As cartas de Vincent e Theo van Gogh

Theo e Vincent escreviam um para o outro com frequência, e muitas das cartas de Vincent para Theo foram preservadas. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito das cartas de Theo para Vincent; elas parecem ter se perdido.

Das mais de oitocentas cartas que Vincent van Gogh escreveu que ainda existem, aproximadamente três quartos delas foram escritas para seu irmão mais novo, Theo. Quando Vincent eventualmente cometeu suicídio, uma carta inacabada para seu irmão Theo foi descoberta em seu bolso.

Theo, que se empenhava com seriedade em aprimorar suas habilidades como negociante de arte, era bem presente na vida de Vincent oferecendo encorajamento e críticas úteis ao seu trabalho.

Durante um período de sua vida, Vincent morou com o irmão Theo em Paris. No início, Theo ficou empolgado com o progresso de Vincent e escreveu a seus pais: “Se pudermos continuar a viver juntos assim, acho que o período mais difícil passou e ele encontrará seu caminho.”

Mas viver com Vincent era quase impossível!

>> Entenda aqui como era o temperamento e a personalidade de Vincent van Gogh

Com o passar do tempo, Theo parou de trazer amigos para casa porque eles inevitavelmente acabavam brigando com Vincent. 

Ele escreveu a sua irmã: “Minha vida doméstica é quase insuportável. Ninguém mais quer vir me ver porque sempre termina em brigas, e além disso ele é tão desleixado que o quarto parece longe de ser atraente.”

Vincent se mudou para Asnières, no lado norte de Paris, onde mergulhou em sua arte e produziu quase 200 pinturas. Ele amava seu tempo no campo, que o lembrava de sua casa de infância. Vincent escreveu a Theo: “Meu grande arrependimento é que você não possa ver o que estou vendo aqui.”

Os últimos anos de Vincent. E de Theo van Gogh.

Theo van Gogh casou-se Johanna Bonger (conhecida como Jo) no dia 17 de abril de 1889, em Amsterdã, na Holanda. Jo era professora e tradutora holandesa. Eventualmente, foi a principal responsável por transformar Vincent em um ícone mundial da arte, organizando exposições, catalogando e publicando as cartas entre os irmãos e preservando seu vasto acervo após ficar viúva.

Mas voltando em 1889, foi dois dias depois de receber a notícia do noivado do irmão que ocorreu o episódio quando Vincent cortou a própria orelha após uma briga com o colega artista Paul Gauguin. 

O comportamento de Vincent estava se tornando ainda mais errático, e os moradores da cidade descreviam o artista como “o ruivo louco”.

Ao ser internado em um asilo psiquiátrico, Vincent escreveu para o irmão Theo: “A gentileza que você teve por mim não está perdida, apenas transferida. Transfira esse afeto para sua esposa o máximo possível.”

Com os altos e baixos de sua sanidade mental cada vez mais pronunciados, em certa noite, na janela do asilo, Vincent viu a cena que se tornaria imortalizada na obra “A Noite Estrelada”.

Theo e Johanna tiveram um filho em janeiro de 1890, a quem chamaram Vincent em homenagem ao irmão de Theo. 🥹

A notícia encheu Vincent de uma alegria rara. 

Ele escolheu celebrar o afilhado com o que sabia fazer de melhor. Foi quando Vincent van Gogh pintou “Amendoeira em Flor”, um dos quadros mais serenos e luminosos de toda sua obra.

Para Vincent, amendoeiras em flor representavam despertar e esperança, o início de algo novo. A tela foi pensada para ficar pendurada perto do berço do menino, um gesto de afeto e ternura vindo de um homem que, àquela altura, vivia dias cada vez mais sombrios.

Infelizmente, Vincent se matou em julho daquele ano, atirando no próprio peito com um revólver. 

Theo estava ao lado da cama do irmão quando ele morreu, ouvindo suas últimas palavras.

Vincent foi enterrado no cemitério de Auvers-sur-Oise.

Totalmente desequilibrado com a morte do irmão, Theo abandonou seu emprego de longa data como negociante de arte e começou um novo negócio exclusivamente para vender as pinturas de Vincent.

O ex-empregador de Theo disse que ele se tornou “uma espécie de louco, como seu irmão”. Isso foi tão literal que ele foi internado em um asilo psiquiátrico em outubro de 1890.

Theo desenvolveu demência paralítica, uma condição neurológica causada por sífilis em estágio avançado. O colapso emocional pela morte do irmão pode ter acelerado dramaticamente sua doença e, em janeiro de 1891, seis meses após a morte de Vincent, Theo faleceu. 💔

Embora Theo tenha sido enterrado originalmente em outro lugar, Johanna mandou exumar seu corpo e enterrá-lo ao lado de seu irmão Vincent. Ela publicou sua correspondência privada em 1914 e, através de múltiplas exibições e vendas de arte, conseguiu tornar van Gogh um nome conhecido.

O belo relacionamento dos irmãos van Gogh

Theo van Gogh entendia seu irmão melhor do que ninguém e reconhecia a dificuldade que ele tinha em equilibrar impulsos criativos com a vida real.

Theo sustentava Vincent financeira e emocionalmente, apoio sem o qual Vincent jamais teria conseguido se dedicar inteiramente à pintura. 

Mas o inverso também era verdadeiro: um psicanalista que estudou Van Gogh por décadas descreveu que os irmãos fizeram um pacto, cerca de uma década antes de morrerem, para trabalhar como uma equipe: Vincent pintando e Theo vendendo as obras do irmão.

Alguns estudiosos sugerem que Vincent pode ter tirado a própria vida, em parte, sabendo que Theo estava terminalmente doente e não teria mais como sustentá-lo física, financeira e emocionalmente. Se essa hipótese for verdadeira, o suicídio de Vincent não teria sido apenas sobre sua própria dor, mas também sobre uma antecipação da perda do único elo que o mantinha vivo.

Hoje, os túmulos de Vincent e Theo van Gogh repousam lado a lado no pequeno cemitério de Auvers-sur-Oise, cobertos pela mesma hera que Vincent tanto amava pintar. É uma imagem quase poética demais para ser verdade: os dois irmãos, que não conseguiram viver muito tempo um sem o outro em vida, permanecem juntos até hoje; prova de que, por trás de cada girassol, de cada noite estrelada, havia sempre dois nomes, não um.

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