“Os Comedores de Batata”: a primeira grande obra-prima de van Gogh

Os Comedores de Batata, de Vincent van Gogh
Conheça a arte e a trajetória contidos em "Os Comedores de Batata", a incrível obra de Vincent van Gogh que foi recebida como um fracasso.

Já conversamos por aqui sobre a história de Vincent van Gogh, um artista à frente do seu tempo e um gênio atormentado pela mesma brilhante mente que o guiava na produção de suas célebres, peculiares e fascinantes pinturas.

A primeira grande obra-prima de van Gogh foi “Os Comedores de Batata” que, como a maioria de suas artes, não teve boa aceitação tampouco o reconhecimento do público na época.

Por que as pessoas não gostaram de “Os Comedores de Batata”?

Qual foi a inspiração de van Gogh ao desenvolver essa pintura?

O que “Os Comedores de Batata” revela sobre a mente de van Gogh?

Hoje nós vamos minuciar esta obra de arte hoje tão aclamada, mas outrora desprezada. As descobertas expostas nesta leitura te farão apreciar ainda mais o habilidoso e sensível autor por detrás das pinceladas.

Um breve contexto da vida de van Gogh

“Sua juventude foi austera, fria e estéril.”

Essa é uma frase comum em biografias de van Gogh.

Se você associa a infância e adolescência à doces e divertidas memórias, van Gogh não podia dizer o mesmo.

Nascido e criado numa pequena cidade da Holanda, van Gogh cresceu em um ambiente de disciplina religiosa, com pouca demonstração de afeto e sem diversão ou realizações pessoais, o que muitos biógrafos acreditam ter influenciado sua personalidade e sua arte.

Aos 16 anos, Vincent van Gogh teve seu primeiro emprego no escritório da Goupil & Cie, uma empresa internacional de negociação de arte. 

Apesar de ter começado entusiasmado, com o tempo van Gogh passou a considerar seu trabalho enfadonho e pouco estimulante, sobretudo quando foi transferido para a filial de Londres, onde ele estava solitário e com dificuldade de fazer amigos. 

No decorrer de sua juventude e vida adulta, van Gogh passou por diversas rejeições amorosas, o que o deixavam desolado a ponto de parar de comer, negligenciar a aparência e ficar meses sem escrever para seus pais. Sim, já conseguimos perceber que a intensidade é uma característica patente do artista.

Foi mais ou menos nessa época que Vincent começou a se sentir mais atraído pela religião. Intenso como sempre, o que outrora era um interesse se transformou em uma obsessão. Após ser demitido da Goupil & Cie, van Gogh passou a realizar um trabalho missionário na Inglaterra.

O surgimento de “Os Comedores de Batata”

Depois do término de um relacionamento amoroso com uma prostituta que tinha problemas com álcool e estava grávida de outro homem, van Gogh ficou por um período profundamente deprimido e via apenas morte e decadência, o que percebemos nas pinturas que ele realizou naquela época.

Ele decidiu voltar para a casa dos seus pais que agora viviam em Nuenen, uma pequena vila em Brabant, na atual Holanda.

Foi em Nuenen que ideias sobre arte, trabalho e dignidade começaram a tomar forma mais clara na mente de van Gogh. 

O artista diariamente percorria os campos desenhando tecelões, trabalhadores rurais e camponeses. Ele os retratava não como sujeitos distantes, mas como pessoas cujas vidas ele queria entender. Van Gogh desejava viver entre eles, compartilhar suas rotinas e suas dificuldades. Vincent sentia uma verdadeira afinidade com os pobres, cujas vidas de exaustão e incerteza ecoavam sua própria vida interior. 

Com sua notória sensibilidade ao observar esses camponeses na mesa, desfrutando juntos de uma refeição, Vincent van Gogh percebeu que eles formavam uma comunidade através do trabalho e do sustento compartilhado. Para Vincent, a mesa camponesa tornou-se quase sagrada.

Na primavera de 1885, ele se sentiu pronto para tentar algo maior, uma pintura que reunisse essas crenças em uma única declaração. Ele queria fazer uma obra que “representasse alguma coisa”.

Foi quando Vincent van Gogh pintou “Os Comedores de Batata”, em meados de abril e maio de 1885, em Nuenen.

As singularidades de “Os Comedores de Batata”

As figuras ao redor da mesa em “Os Comedores de Batata” são membros da família De Groot, trabalhadores rurais locais que Vincent conhecia bem. Ele visitava a moradia destas pessoas com frequência, às vezes diariamente, desenhando-os enquanto comiam sua refeição noturna, estudando seus rostos, mãos e movimentos ao longo do tempo. 

A preparação do artista foi extraordinariamente minuciosa. 

Antes de pintar a tela final, Vincent fez dois estudos pintados e dezenas de desenhos. Durante um único inverno, ele produziu mais de 40 estudos de cabeças de camponeses, incluindo pelo menos 20 de Gordina De Groot, a jovem que aparece na pintura final. 

Três meses antes, ele já havia pintado o homem idoso que mais tarde se senta à mesa segurando uma xícara. 

Essas eram pessoas com quem Vincent passava horas.

A cena de “Os Comedores de Batata” é simples: cinco pessoas estão sentadas ao redor de uma pequena mesa em um interior escuro compartilhando uma refeição composta por batatas recém-cozidas.

O quarto conta detalhes silenciosos: Na parede há um relógio que indica que são sete horas da noite e ao lado do relógio há uma gravura religiosa. Na parte de trás de uma cadeira quase perdida na tinta escurecida, Vincent escreveu seu próprio nome. 

“Os Comedores de Batatas” não retrata uma refeição especial; é o sustento básico. Batatas eram consumidas constantemente, preparadas de diferentes maneiras ao longo do dia. Vincent van Gogh compõe a cena com uma sensação de intimidade, puxando-nos para dentro da sala.

Tecnicamente, a pintura exigiu muito de Vincent. Retratar cinco figuras de forma convincente era difícil para um artista que ainda estava aprendendo anatomia e proporção. E fazer isso sob a luz distorcida de uma lamparina a óleo tornava a tarefa ainda mais desafiadora.

Alguns críticos da arte apontaram para os corpos desajeitados e os rostos exagerados. Não foi um erro de proporção; Vincent estava bem ciente dos erros anatômicos.

Acontece que a precisão não era a prioridade do artista. Ele não estava tentando pintar cabeças ou mãos matematicamente corretas que, como é possível verificar em outras artes suas, ele era habilmente capaz de fazer. A intenção de van Gogh era capturar a essência do que via.

A obra de Van Gogh foi inicialmente criticada pela falta de cores vibrantes em suas obras. No entanto, o artista habilmente usava as cores como forma de expressão. Os verdes turvos e marrons de “Os Comedores de Batata” são terrosos para ligar as figuras ao solo que trabalham. As cores parecem pesadas, desgastadas e cansadas justamente para retratar as sensações transmitidas pelas pessoas que estavam ao redor daquela mesa de jantar. A tinta foi aplicada de forma espessa e grosseira para dar ênfase às mãos ásperas e enrugadas dos trabalhadores que compunham a obra.

Com “Os Comedores de Batata”, Vincent van Gogh estava, como disse mais tarde, “arando sua tela da mesma forma que eles aravam seus campos”. 

Na obra, uma figura feminina se destaca no centro. Ela não tem cadeira e está de pé. O vapor das batatas forma uma auréola tênue ao redor de sua cabeça, e sua atenção parece estar direcionada à imagem religiosa na parede. Ela está rezando ou servindo? A ambiguidade dá à cena uma espiritualidade silenciosa e contida.

Essa sensação de espiritualidade permeia toda a pintura. 

As crenças religiosas de Vincent não haviam desaparecido, apenas mudaram de direção. Aqui, o propósito está voltado no trabalho, na comunidade e no sofrimento compartilhado. A mesa se torna um altar; e a refeição, os ritos sagrados. 

Ao mesmo tempo, podemos olhar para a pintura como um reflexo do próprio isolamento de Vincent. Ele e seus pais sempre tiveram um relacionamento difícil, e sua nova carreira como pintor e seus conturbados relacionamentos amorosos criaram um fosso entre eles. Talvez, ao pintar uma família unida compartilhando uma refeição, Vincent possa ter imaginado o calor doméstico que lhe faltava em sua própria família. 

Em uma carta a seu irmão Theo, Vincent van Gogh explicou claramente o propósito da obra “Os Comedores de Batata”:

“Eu realmente quis fazer com que as pessoas entendessem que essas pessoas que estão comendo suas batatas à luz de sua pequena lâmpada cavaram a terra com estas mesmas mãos que estão colocando no prato.”

A recepção de “Os Comedores de Batata”

Van Gogh acreditava que “Os Comedores de Batata” seria seu grande avanço. Ele sentia que havia pintado a vida camponesa como ela realmente era. A crença de sucesso era tanta que, antes mesmo de concluir a tela, ele fez uma litografia para que seu irmão Theo pudesse promovê-la em Paris.

No entanto, o que Vincent considerava verdade expressiva foi recebido como um fracasso técnico.

Ao ver a litografia da obra, Anthon van Rappard, pintor e amigo de van Gogh, atacou justamente aquilo que hoje pode parecer uma característica expressiva da obra: a anatomia distorcida.

Ele questionou, por exemplo, por que determinado personagem parecia não ter joelho, barriga ou pulmões e por que seu braço parecia excessivamente curto. Para ele, Van Gogh havia tratado a arte de maneira demasiadamente descuidada. A crítica foi tão dura que rompeu a amizade entre os dois.

Em uma carta posterior, van Gogh ele admitiu que havia problemas nos torsos das figuras. Mas defendeu que estava buscando não desenhar uma mão “matematicamente correta”, mas captar o gesto e a expressão geral. Ou seja, ele sabia que estava sacrificando parte da correção anatômica em favor da expressão.

Theo foi outra pessoa que não gostou da pintura. Para ele, a pintura do irmão era escura demais para Paris, uma cidade cativada pela cor impressionista. 

Van Gogh tinha esperança de que “Os Comedores de Batata” pudesse ajudá-lo a entrar no mercado artístico. Ele chegou a pedir a Theo que procurasse possíveis compradores, inclusive o galerista londrino Thomas Wallis.

No entanto, os galeristas consultados não demonstraram interesse em comprar a pintura.

Ademais, a obra também não chegou a ser exibida no Salon, que era uma das grandes vitrines do mundo artístico francês naquele período.

Van Gogh, no entanto, continuou acreditando em sua obra. 

Mesmo depois das críticas, ele não passou a considerar “Os Comedores de Batata” um fracasso. Pelo contrário: continuou defendendo a obra e, anos depois, ainda a considerava uma de suas melhores pinturas.

Em 1887, já em Paris, ele escreveu à irmã Wil que aquela pintura dos camponeses comendo batatas era, afinal, a melhor coisa que havia feito. 🥹

Até a morte de van Gogh, não houve uma grande reabilitação da obra.

Entre o final dos anos 1890 e as primeiras décadas do século XX, a linguagem de Van Gogh começou a fazer sentido para o mundo artístico.

Movimentos como Expressionismo, Fauvismo e outras formas de modernismo favoreceram o entendimento do que van Gogh insistia em mostrar na sua época: autenticidade e intensidade psicológica.

Martin Bailey, especialista em van Gogh, observa que ainda hoje podemos ter sentimentos mistos em relação à obra: a composição não é totalmente convincente, as figuras parecem pouco integradas entre si e a representação dos camponeses pode nos causar desconforto.

Mas, apesar disso, a pintura possui uma força enorme. Não precisamos fingir que “Os Comedores de Batata” é tecnicamente perfeita para reconhecer que ela é artisticamente extraordinária.

“Os Comedores de Batata” pode não ter trazido a Vincent o reconhecimento que ele esperava, mas parece que estabeleceu algo essencial: marcou o ponto a partir do qual sua arte avançaria, definindo tanto o que ele deixaria para trás quanto o que continuaria a moldá-lo.

Tudo o que se seguiu seria mais brilhante, mais colorido e mais radical. 

No entanto, ainda carregaria a mesma convicção que sua primeira grande obra, “Os Comedores de Batata”, teve: que a arte deveria estar enraizada em vidas reais e deveria ser honesta.

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