O que a ciência descobriu sobre os sonhos?

o que a ciência descobriu sobre sonhos

Estudos indicam que passamos cerca de um terço de nossas vidas dormindo e temos de três a cinco sonhos por noite.

Se vivermos até noventa anos de idade, é possível estimar que passaremos cerca de seis anos sonhando.

Sim, os sonhos compõem uma parte bem importante das nossas vidas, por isso despertam tanto interesse e curiosidade.

Porém, entender por que sonhamos e o que significam nossos sonhos é complicado por pelo menos três motivos:

  • só podemos relatá-los quando acordamos e parte da história já foi esquecida; 
  • a única testemunha deles somos nós mesmos; 
  • e, para complicar um pouco mais, eles acontecem enquanto estamos dormindo!

Os humanos tentam descobrir explicações plausíveis para os sonhos há milhares de anos e já antecipo que respostas completamente elucidativas ainda não foram encontradas. Porém, a Ciência já descobriu fatos que nos fazem crer que sonhos são muito mais que historinhas que nosso cérebro cria aleatoriamente.

Quer saber o que a iência já descobriu sobre os sonhos? Vem comigo descobrir!

🌙 Fatos rápidos sobre sonhos

  • Sonhamos todas as noites, mesmo que não guardemos nenhuma lembrança consciente dos sonhos.
  • Um sonho pode durar de cinco a vinte minutos.
  • Esquecemos os sonhos com facilidade talvez pela baixa de noradrenalina no córtex cerebral durante o sono, ou porque, ao acordar, o hipocampo, parte do cérebro essencial para formar memórias de longo prazo, ainda não está totalmente “ligado”.
  • Enquanto sonhamos, o cérebro bloqueia os comandos que chegam aos músculos e ficamos praticamente paralisados. Isso nos protege de, por exemplo, sair dando socos num sonho em que estamos numa briga.

A ciência dos sonhos

Os cientistas acham que os sonhos podem ter muitas funções que influenciam nosso sucesso, nossa inteligência e até nossa sobrevivência.

O sono é formado por quatro fases:

A primeira fase é quando passamos da vigília para o sono, marcada por relaxamento e desaceleração da respiração.

À medida que a temperatura do corpo cai e a respiração desacelera ainda mais, entramos no sono leve.

Depois disso vem o sono profundo, caracterizado por um padrão cerebral particular chamado ondas delta.

Por fim, entramos no sono REM ou “movimento rápido dos olhos”. Aqui, nossa respiração fica mais rápida e nossos olhos se movem rapidamente. É durante o REM que acontecem os sonhos mais vívidos. Ao longo dessa fase, nossos cérebros ficam tão ativos quanto se estivéssemos acordados.

Diferente das interpretações de célebres personagens da psicologia e psiquiatria como Sigmund Freud e Carl Jung, a ciência moderna não vê os sonhos como mensagens enterradas a serem decodificadas ou interpretadas.

Os pesquisadores da atualidade se perguntam sobre as funções e os benefícios que nossos cérebros podem obter dos sonhos.

Você já sonhou que você estava em sua casa, mas não era sua casa; num local que parecia seu quarto, mas que nada tem a ver com seu quarto real; e você está prendendo seus cabelos com um amarrador de cabelo que, na realidade, é uma cobra?

Muitos sonhos parecem não ter pé nem cabeça e, na nossa interpretação, são histórias aleatórias criadas pelo nosso cérebro, certo?

Errado.

Pesquisas indicam que os sonhos não são tão aleatórios quanto parecem.

O que sonhamos muitas vezes tem a ver com o que fazemos enquanto estamos acordados, especialmente se estamos aprendendo algo novo.

Os sonhos e a aprendizagem

As coisas que acontecem conosco todos os dias só acontecem uma vez.

Vou te dar um exemplo:

Imagine que, numa terça-feira qualquer, você aprende o caminho até a casa nova de uma amiga. Você presta atenção nas curvas, na padaria da esquina, no portão azul. Na hora, parece que nunca vai esquecer. Mas essa lembrança ainda é frágil, como um rascunho a lápis, afinal, aconteceu uma única vez.

Na memória de curto prazo, essas experiências diárias são frágeis e podem desaparecer facilmente.

Para chegarem à memória de longo prazo, o cérebro precisa revisitá-las, e boa parte desse trabalho acontece quando?

Exatamente — enquanto estamos dormindo.

Retomando o caso do trajeto até a casa da amiga, é possível acontecer que, durante a noite, enquanto você dorme, o cérebro “repasse” esse trajeto, reforçando as conexões que guardam aquela informação. Por isso, no sábado, você consegue voltar lá sem abrir o GPS.

Os sonhos parecem ser uma janela para esse processo de aprendizado: fragmentos do nosso dia aparecem misturados a lembranças antigas, como se a mente estivesse decidindo o que vale a pena guardar.

Em 2000, o pesquisador Robert Stickgold, de Harvard, conduziu uma pesquisa que ficou conhecida como o experimento do Tetris. Stickgold pediu que voluntários jogassem Tetris por horas. À noite, muitos relataram sonhar com peças coloridas caindo e se encaixando. O curioso é que isso aconteceu até com pessoas com amnésia, que nem lembravam de ter jogado. Sim, o cérebro estava “reproduzindo” a experiência do dia, mesmo sem a memória consciente dela.

Mas, aparentemente, os sonhos não servem apenas para reforçar os aprendizados.

Outras funções dos sonhos

Nós sonhamos para lembrar, mas também para esquecer, sabia?

Existem centenas de trilhões de conexões neurais dentro da arquitetura cerebral geradas a partir do que pensamos e do que fazemos.

A teoria neurobiológica dos sonhos de 1983 conduzida por Francis Crick (um dos descobridores do DNA!) e Graeme Mitchison sustenta que durante o sono, principalmente durante os ciclos REM, nosso neocórtex revisa essas conexões neurais e descarta aquelas desnecessárias. 

Sem este processo de “desaprender”, que resulta em nossos sonhos, o cérebro ficaria sobrecarregado pelas conexões inúteis e pensamentos parasitas poderiam perturbar o raciocínio adequado que você precisa fazer quando está acordado.

Os sonhos também exercem um papel de cura psicológica.

Os neurotransmissores de estresse do cérebro estão muito menos ativos durante a fase de REM do sono, mesmo durante sonhos de experiências traumáticas, levando alguns pesquisadores a teorizar que um dos propósitos do sonho é mitigar experiências dolorosas para permitir a cura psicológica. 

Rever eventos traumáticos nos sonhos com menos estresse mental pode dar uma perspectiva mais clara e capacidade de processá-los de forma mais saudável psicologicamente. 

Muitas pessoas com transtornos do humor e TEPT têm dificuldade em dormir, levando alguns cientistas a acreditar que a falta de sonho pode ser um fator que contribui para suas doenças.

E o que dizer dos pesadelos?

Certo estudo dos Estados Unidos registrou os pesadelos de dois mil participantes.

O pesadelo mais comum no grupo era cair.

Em seguida, ser perseguido.

Depois vinha a morte, sensação de estar perdido, sentir-se preso, ser atacado, perder um evento importante, acordar tarde, se machucar, ter seus dentes caindo e vivenciar um desastre natural.

Eu já tive um pesadelo onde minha família e eu estávamos prestes a ser engolidos por uma onda de um tsunami. A sensação é desesperadora.

Cerca de um em cada quarenta sonhos é um pesadelo. 

Por que nossos cérebros reproduzem nossos piores medos e memórias?

A Teoria da Simulação de Ameaças, de Antti Revonsuo, sugere que os sonhos nos permitem “praticar” eventos e situações perigosas. Isso ajudaria a explicar por que algumas pessoas revivem experiências traumáticas em sonhos. O cérebro está tentando nos condicionar a sobreviver a experiências ameaçadoras “praticando” em um ambiente seguro, ou seja, dentro do nosso cérebro adormecido.

Já ouviu falar de sonhos lúcidos?

Cinquenta e cinco por cento das pessoas em algum momento de suas vidas terão o que é chamado de sonho lúcido, e 23% das pessoas têm sonhos lúcidos pelo menos uma vez por mês.

Sonho lúcido é quando você está sonhando e, de repente, se torna consciente de que está sonhando, lá “dentro” do sonho mesmo. 

Em um sonho lúcido, você pode estar sendo perseguido por um monstro e, de repente, você diz a si mesmo: “Espere um minuto, por que estou correndo? Isso é um sonho!” E então você acorda.

Às vezes você permite que o sonho continue, mas não ficará mais assustado, pois tem controle da história. 

Por que os sonhos lúcidos acontecem é outra incerteza. Cientistas falaram sobre mudanças químicas cerebrais, mudanças na atividade das ondas cerebrais e a possibilidade de sono híbrido. Aliás, prometo voltar aqui para desbravar melhor essa questão.

O que os sonhos querem nos dizer?

É fascinante saber que, enquanto dormimos, nosso cérebro está organizando memórias, descartando o que não serve, aliviando dores e até nos treinando para enfrentar perigos. A ciência ainda não tem todas as respostas, mas já nos mostrou que sonhar está longe de ser perda de tempo.

Só que, cá entre nós, confesso: o que mais me encanta nos sonhos não são as ondas delta nem os neurotransmissores.

 É aquela pergunta que a gente faz ao acordar: “o que será que isso quis dizer?” 

Não estou falando de misticismo, longe disso. Estou falando da ideia de que os sonhos podem revelar algo sobre nós mesmos, sobre o que sentimos, tememos ou desejamos, mesmo sem perceber.

E foi justamente por esse caminho que seguiram dois nomes gigantes da psicologia: Sigmund Freud e Carl Jung.

Para eles, os sonhos eram muito mais do que faxina cerebral: eram uma porta para o inconsciente. Mas essa é uma conversa que merece seu próprio texto. Prometo voltar em breve para desbravar o que eles diziam.

Enquanto isso, me conta nos comentários: você costuma lembrar dos seus sonhos? Qual foi o mais marcante? 🥰

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