Dos cinco aos doze anos eu fui uma criança asmática. Tive crises muito fortes de asma e idas ao Plantão da Criança, o nome de uma extinto pronto atendimento infantil que tinha aqui na cidade onde moro, eram rotina aqui em casa.
Somos em quatro irmãos, eu sou a terceira da tropa que é composta de três meninas e um menino. Depois que deixei de ter crises de asma, fiquei incrivelmente saudável no quesito “doenças respiratórias”, tanto que, atualmente, meus três irmãos são assíduos frequentadores de episódios de rinite alérgica e eu sequer isso tenho. É como se já tivesse alcançado a minha cota com a asma.
Minha mãe fazia tudo o que indicavam para a cura da minha asma — desde consulta com diversos médicos até receitas caseiras que incluíam, por exemplo, enterrar um frasco de xarope caseiro e consumí-lo após ele ficar enterrado por X dias.
Ah, falando em enterrar, acabo de me lembrar da vez que nos indicaram a prática de enterrar o corpo na areia para acabar com as crises de asma e risos espontâneos acontecem neste momento que eu estou lembrando de mim mesma na praia, enterrada na areia, apenas com a cabeça para fora. 😄
Lembranças engraçadas à parte, deve ser devastador para um pai e uma mãe ver um filho, em idade infantil, tendo dificuldades para respirar.
Certo dia, nos indicaram o que, para mim, foi o mais inusitado de todos os tratamentos da minha história com a asma: consumir bichinhos do amendoim. Diziam que era batata! E detalhe: eles deveriam ser comidos ainda vivos.
É estranhamente peculiar, mas não se assuste: são bichinhos mínimos e inofensivos que certamente foram reduzidos à nada no primeiro contato com o suco gástrico do meu estômago.
Lendo o parágrafo acima acabei dando um spoiler: sim, eu acabei ingerindo os tais bichinhos do amendoim.
Não foram eles que me curaram dos episódios de asma, mas depois que eu cresci e amadureci percebi o quanto esses bichinhos foram importantes não para minhas crises de asma, mas para minha vida.
Antes de te contar porquê, preciso registrar um breve contexto.
Como vocês puderam perceber e quem sabe até elaborar um perfil mental, minha mãe é a clássica “mãezona” que faz de tudo e além para os filhos. Aquela mãe que se sacrifica, se anula e obtém força física e emocional não sei de onde . . .
Minha mãe e meu pai nasceram no final dos anos 50. Eles fazem parte daquela geração de ouro que não tinha um tostão do bolso e, com muita garra e muito esforço, construíram uma vida confortável para si mesmos e para a família que constituíram. A geração que quis uma vida diferente do que tinham e chegaram lá, eles conseguiram!
Meu pai faz parte daquele modelo clássico que muitos leitores aqui conhecem bem: trabalhava arduamente e providenciava tudo o que minha mãe, meus irmãos e eu precisávamos para viver tranquilamente e para que minha mãe pudesse estar bem presente em nossa criação.
Apesar de hoje ele ser como um adorável e encantador ursinho, durante a minha infância e minha adolescência meu pai era um homem durão, de poucos sorrisos e muitos resultados.
Eis que certo dia, esse homem durão, alto, forte, dono de um voluptuoso bigode; aproximou-se do local onde ficavam armazenados os bichinhos de amendoim envolvos do que eles mais gostavam de comer: amendoim. Estavam eles lá, caminhando com aqueles corpos com uma textura semelhante à das baratas e com aquela aparência que apenas o Timão consideraria “viscoso, mas gostoso”.
Então, meu pai pegou um pão, e disse:
“Eu também quero comer esses bichinhos!”
Colocando alguns deles no meio do pão que acabara de pegar e mordendo-o sem qualquer expressão de nojo e repulsa, ele ainda acrescentou algo:
“Poxa, que delícia! Tem gostinho de amendoim, experimenta pra tu ver como é bom!”
Lembro que na época eu não fiz a associação que hoje faço claramente. Eu devo ter pensado que meu pai tinha um gosto peculiar e que ele colocava pra dentro do corpo tudo o que tivesse aparência de comida.
Hoje, com o coração apertado, eu consigo perceber que super e incríveis pais que eu tenho!
Aquela mulher que percorria toda a cidade atrás de médicos e receitas para me curar, mesmo tendo mais três filhos pra cuidar e a empresa para administrar. Aquele homem durão que, no final de um dia cansativo, chegou em casa e, ao invés de assistir o Jornal Nacional, foi comer bichinhos de amendoim crus!
E fico com vergonha de ter vivido uma fase quando eu achava que meus pais eram responsáveis pelos fracassos da minha vida: minha mãe porque foi superprotetora quando ela estava, na verdade, querendo respirar no meu lugar; e meu pai porque estava ausente quando, na realidade, ele estava provendo todas as condições necessárias para seus filhos terem segurança e estabilidade.
Que idiota que eu fui . . .
A nossa geração é marcada por fazer terapia e achar que viveu grandes traumas. No auge dos meus 37 anos penso no quão mesquinhos somos em achar que o mundo gira em torno de resolvermos tais feridas que nem traumas são, e que somos pessoas louváveis por querer reescrever a nossa história e fazer diferente.
Será mesmo que estes louros são nossos?
Incríveis, louváveis e diferenciados são os nossos pais! Obrigada, Deus, por ser exatamente a minha mãe e exatamente o meu pai os meus genitores. Que sorte a minha! 🩷








