Sherman Sizemore, um americano nascido na Virgínia Ocidental, EUA; em 30 de setembro de 1930, era a definição de um homem extremamente forte.
Ele passou a maior parte da sua vida adulta exercendo um dos trabalhos mais perigosos do mundo: mineração de carvão.
Durante esse período, Sherman Sizemore perdeu a conta de quantas vezes quase morreu devido a desabamentos de túneis e vazamentos de gás.
Com os filhos crescidos, Sherman decidiu se aposentar da mineração e se tornar um ministro batista ordenado.
Apesar de sua aparência robusta e intimidadora, ele era conhecido por ser extremamente gentil e amável com os membros de sua congregação.
Também era um avô extremamente dedicado. Ele aproveitava toda e qualquer oportunidade de passar tempo com seus netos e largava todas as suas responsabilidades para isso.
Mas em janeiro de 2006, algo mudou em Sherman Sizemore. Ele passou de um pilar da comunidade para alguém completamente perturbado e paranoico.
O evento que mudou a vida de Sherman Sizemore
Alguns meses antes, Sherman Sizemore começou a reclamar de fortes dores abdominais. Ruby, sua esposa, e a filha do casal o levaram para o hospital e, após alguns exames, o médico concluiu que provavelmente o problema era na vesícula biliar.
A única forma de confirmar seria através de uma cirurgia exploratória, olhando diretamente dentro do abdômen.
Sherman conversou com a família e decidiu operar, pois a dor era intensa demais.
Na manhã de 19 de janeiro de 2006, Sherman Sizemore entrou no hospital completamente normal. A esposa e a filha o acompanharam até a ala cirúrgica, onde ele se despediu delas e foi levado para a preparação da cirurgia.
Deitado na maca, olhando para as luzes fortes acima dele, Sherman conversava com enfermeiros e médicos enquanto preparavam tudo e colocavam o acesso intravenoso.
Em certo momento, uma enfermeira colocou a máscara de oxigênio em seu rosto para que fossem administrados os medicamentos da anestesia geral.
A anestesia geral envolve dois medicamentos: um que paralisa o corpo e outro que causa inconsciência e elimina a dor.
No entanto, o anestesista administrou apenas o medicamento paralisante — não aplicou o anestésico que o faria dormir e bloquear a dor.
Sem saber disso, Sherman Sizemore acreditava que estava sendo anestesiado corretamente. Uma enfermeira pediu que ele contasse de trás para frente a partir de 10.
Mas ele não apagou. Diferente do que acontecesse com quase todos os pacientes anestesiados, ele fez a contagem regressiva até o fim e permaneceu acordado.
Sherman Sizemore percebeu que estava consciente. Embora sentisse o corpo, ele não conseguia se mover, estava completamente paralisado. Suas cordas vocais também estavam paralisadas, logo, ele também não conseguia falar.
A única coisa que conseguia mover eram os olhos — mas estavam colados com fita, então ele não podia ver.
Sherman pensou que talvez fosse questão de tempo até dormir, mas começou a ouvir os médicos iniciando a cirurgia.
Entrou em pânico e começou a mover os olhos rapidamente. Esse movimento soltou parcialmente a fita, criando uma pequena abertura.
Por essa abertura, viu o cirurgião se aproximando, pedindo o bisturi e iniciando o corte em seu abdômen.
Sherman Sizemore sentiu tudo.
Sem poder reagir, só conseguia mover os olhos, tentando chamar atenção — mas ninguém percebia.
O cirurgião abriu um corte grande, usou instrumentos para manter a abertura e começou a manipular seus órgãos. Cada movimento causava dores intensas, indescritíveis.
Inseriram uma câmera, usaram sucção, instrumentos metálicos… tudo enquanto Sherman Sizemore sentia cada segundo.
Ele começou a desejar morrer.
Até que uma enfermeira percebeu seus olhos e gritou: “Pare! Ele está acordado!”
O cirurgião entrou em choque e chamou o anestesista, que rapidamente administrou sedativos e analgésicos.
Nesse momento, percebeu o erro: não havia administrado o anestésico.
Com os medicamentos, Sherman finalmente perdeu a consciência.
Mas a equipe percebeu um problema grave: ele tinha sentido 16 minutos de cirurgia e provavelmente lembraria disso, podendo processar o hospital.
Então foi administrado outro medicamento, o midazolam, conhecido como “droga da amnésia”, que apaga memórias recentes.
A cirurgia foi concluída, e Sherman Sizemore foi levado para a sala de recuperação.
Ao acordar, ele não lembrava conscientemente do que aconteceu — mas seu corpo registrou o trauma.
Ele sentia medo extremo, ansiedade e uma sensação constante de pavor, sem entender o porquê.
A insuportável vida após o terrível trauma
Sheman Sizemore voltou para casa naquele mesmo dia.
Sherman e Ruby, sua esposa, estavam sentados no sofá de casa quando, de repente, Sherman começou a gritar como se estivesse vendo algo extremamente assustador à sua frente. O grito dele assustou Ruby, que também começou a gritar.
Ela olhou para o marido, e ele continuava olhando fixamente para frente, aterrorizado por algo que ela não conseguia ver. Ruby olhou na direção em que ele olhava e não havia nada lá. Voltou-se para ele e perguntou o que estava acontecendo, do que ele estava com tanto medo.
Mas Sherman não conseguia falar.
Depois de parar de gritar, ele continuou olhando fixamente, como se estivesse em transe. Sherman estava suando, seus olhos estavam arregalados, sua boca aberta e seu rosto, pálido.
Ruby entrou em pânico, sem entender o que estava acontecendo.
Ela o abraçou e disse: “Volte para mim, volte para mim”. Em certo momento, Sherman pareceu sair do transe, olhou para ela e disse: “Você não pode me deixar, ou eles vão me matar”.
Ruby nunca tinha visto esse tipo de comportamento no marido. Era como se fosse outra pessoa. Sem saber o que fazer, ela apenas continuou ao lado dele, torcendo para que aquilo não voltasse a acontecer.
Mas infelizmente voltou a acontecer.
Ao longo do dia, Sherman Sizemore tinha episódios em que começava a gritar com coisas que Ruby não conseguia ver.
Ela chegou a considerar chamar emergência médica, mas o fato de Sherman sempre ser tão forte e saudável fez Ruby acreditar que ele conseguiria superar aquilo e que, no dia seguinte, ele estaria melhor.
Ruby passou o dia confortando o marido e, quando foram dormir, ela estava esperançosa de que, no dia seguinte, o marido acordaria melhor.
Mas, quando Ruby acordou, ficou claro que Sherman não havia dormido. Ele estava olhando fixamente para o teto, pior do que no dia anterior. Ruby então chamou o restante da família para ajudar a decidir o que fazer.
Quando Sherman Sizemore soube que a família estava vindo, disse que eles não podiam entrar. Ele acreditava que estavam conspirando para enterrá-lo vivo. A única pessoa com quem ele se sentia seguro era Ruby.
A família não fazia ideia do que estava acontecendo. O que eles não sabiam é que havia uma razão muito específica para aquele comportamento.
Então, buscaram ajuda médica e psicológica, mas antes que descobrissem a causa, a situação se tornou insuportável.
No dia 2 de fevereiro, apenas duas semanas após a cirurgia, Sherman pegou uma arma e tirou a própria vida.
A família ficou devastada e passou a investigar o que havia ocorrido.
Ao analisarem o relatório médico com outro especialista, descobriram que Sherman sofreu o que é chamado de “consciência durante anestesia”, uma condição em que o paciente acorda ou sente a cirurgia.
Isso acontece com cerca de 20 mil pessoas por ano, mas o caso de Sherman — 16 minutos completos de dor intensa — é extremamente raro.
Meses depois, em março de 2007, as filhas entraram com um processo de morte injusta contra a Raleigh Anesthesia Associates, alegando negligência grave.
O processo descreve o horror da seguinte forma: “É difícil imaginar um cenário mais perturbador do que ter o próprio corpo aberto enquanto se está totalmente acordado e alerta, mas completamente incapaz de se mover, gritar ou alertar alguém.”
A família argumentava que, se Sherman tivesse sido informado do erro, poderia ter buscado ajuda psicológica a tempo.
A família recebeu uma indenização em 2008.
A história de Sherman Sizemore se tornou um dos casos mais conhecidos e trágicos de “consciência intraoperatória” (anesthesia awareness) nos Estados Unidos. É um lembrete doloroso de como um erro médico, mesmo raro, pode destruir uma vida inteira em minutos.
Ele não foi apenas uma estatística — foi um pastor, mineiro, pai e avô cuja fé e estabilidade não foram suficientes para suportar o terror que viveu acordado na mesa de cirurgia.









