Você está prestes a conhecer uma das histórias mais inspiradoras da Copa do Mundo de 2026.
Antes do memorável jogo Cabo Verde versus Espanha, pela fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, poucos sabiam da existência do goleiro Vozinha, que tinha cerca de 50.000 seguidores no Instagram.
Sua atuação nesse memorável jogo foi tão brilhante que, após 90 minutos, ele já acumulava cerca de 10 milhões de seguidores nesta mesma rede social.
Por quê? O que o Vozinha, goleiro do Cabo Verde, tem de tão especial?
A estreia do Cabo Verde na Copa do Mundo
Muitas pessoas, inclusive eu, sequer sabem onde fica Cabo Verde no mapa. E é compreensível, uma vez que estamos falando de um país de cerca de 600.000 habitantes, praticamente a população de Florianópolis, aqui no Brasil.

Cabo Verde é um pequeno país formado por dez ilhas principais, localizado no Oceano Atlântico, a cerca de 600 quilômetros da costa oeste da África. Antiga colônia portuguesa, Cabo Verde se tornou independente em 1975 e desenvolveu uma cultura que combina influências africanas e portuguesas.
O país nunca tinha participado de uma Copa do Mundo até 2026. A classificação do Cabo Verde, um país de tão diminuta população, foi uma conquista foi histórica e representou um dos maiores feitos esportivos de sua trajetória.
Sobre a estreia do Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026, Vozinha falou:
“Eu sempre sonhei que um dia Cabo Verde alcançaria a Copa do Mundo. Eu não sabia se isso aconteceria enquanto eu ainda jogava. Mas estamos muito, muito felizes e satisfeitos porque a nossa geração alcançou esse grande sonho que muitas gerações em Cabo Verde nunca viram. Meus avós sempre sonharam em ver Cabo Verde na Copa do Mundo, eles não viram, mas para nós e para todos os cabo-verdianos é como uma grande conquista (…) para um país pequeno, a possibilidade é muito, muito pequena. Sonhamos, este é um grande, grande sonho, e hoje o sonho se tornou realidade para nós. É um grande privilégio e uma grande honra.”
Quem é o Vozinha?
Josimar Dias, o Vozinha, nasceu em 3 de junho de 1986 em São Vicente, uma das 10 ilhas que formam Cabo Verde.
O pai de Josimar amava futebol, tanto é que deu ao filho o mesmo nome de quem foi seu grande herói do futebol, o lendário lateral brasileiro Josimar, que venceu a Copa do Mundo de 1986.
Josimar nunca morou com seus pais.
Quando ele nasceu, seus pais eram muito jovens, tinham quase 20 anos. Seu pai foi para o exército e sua mãe tinha que trabalhar para sustentar a família. Sendo assim, Josimar sempre morou com seus avós.
“Eles eram tudo pra mim. Eles me deram tudo, e depois que meus pais me colocaram no mundo, eles foram as pessoas mais importantes deste mundo. Se eu sou Vozinha hoje, é por causa deles”, emociona-se Josimar ao falar de seus avós.
Quando menino, Josimar era completamente apaixonado por futebol e costumava jogar com as crianças mais velhas que ele. Como ele era o mais novinho da turma, as demais crianças o intimidaram e o empurraram. Com raiva, Josimar corria até os avós. As outras crianças achavam graça da situação e daí surgiu o apelido, “Vozinha”.
Vozinha trabalhou em outros empregos antes de se dedicar exclusivamente ao futebol. Ele teve uma vida comum em Cabo Verde, inclusive trabalhando como bancário e também há relatos de que atuou como eletricista.
Esses trabalhos o ajudaram a se sustentar enquanto ele tentava seguir no futebol amador.
Enquanto há meninos de 16 anos se perguntando se estão muito “velhos” para começar a carreira de goleiros, Vozinha fez sua estreia nesta posição aos 25 anos de tarde, no Progresso Associação do Sambizanga, time da Angola.
Ele mesmo já declarou que pensou em desistir várias vezes, achando que era tarde demais para virar profissional. O talentoso jogador era frequentemente rejeitado em testes por ser baixo (ele mede 1,89m).
O goleiro rodou por ligas modestas em vários países, como Angola, Moldávia, Chipre, Eslováquia e Portugal, sendo o GD Chaves, um time da segunda divisão, o último time onde ele atuou antes da Copa do Mundo de 2026.
Vozinha nunca jogou em estádios cheios, com torcidas vibrantes. Ele tinha um estilo de vida calmo e nômade, sem nunca receber reconhecimento e holofotes.
O goleiro estreou pela seleção de Cabo Verde em 8 de setembro de 2012, aos 26 anos. Na ocasião, sua equipe jogou contra o Camarões. Vozinha ajudou o Cabo Verde a vencer por 2 a 0.
Desde então, ele acumulou mais de 90 jogos pela seleção (até a Copa de 2026) e se tornou um dos maiores símbolos da história do futebol cabo-verdiano, um dos recordistas de jogos pela seleção.
O jogo de estreia do Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026 (e a incrível atuação do Vozinha)
A grande marca lendária de Vozinha aconteceu na estreia de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026, no dia 15 de junho de 2026, contra a Espanha (0 a 0).
A Espanha atualmente é a segunda melhor seleção mundial eleita pela FIFA.
Quando foram sorteados para jogar contra a Espanha, será que a seleção de Cabo Verde acreditava que teria chances?
Vozinha respondeu essa pergunta para o jornalista Roger Bennett, a quem ele confessou:
“No futebol, qualquer coisa pode acontecer. Mas quando vimos que nosso primeiro jogo era contra a Espanha, para nós foi realmente bom porque o primeiro jogo é sempre diferente por muitas razões, e a pressão está toda na Espanha. Não temos nada a perder, e sabíamos que se seguíssemos a estratégia do técnico e se tivéssemos a força e a coragem de correr uns pelos outros e de nos ajudarmos, poderíamos ter um bom resultado (…) Desde o momento em que nos classificamos, dissemos que iríamos à Copa do Mundo para competir, não estaríamos aqui para nos divertir ou para aproveitar. Quando estamos em campo, quando o árbitro apita, temos apenas que dar o nosso melhor e tentar fazer tudo pela nossa seleção.”
Nesta partida, Vozinha estava jogando sob os olhares de cerca de 75.000 pessoas. O estádio do seu clube, o GD Chaves de Portugal, tem capacidade para 8.400 torcedores.
Vozinha tocou na bola 65 vezes na partida de estreia. Toda vez que você pensava que a Espanha iria marcar gol, havia um focado e destemido goleiro que dizia: “Hoje não”.
O goleiro da resiliente seleção do Cabo Verde realizou sete defesas, algumas delas espetaculares, com saltos e mergulhos. Fez uma série impressionante de defesas no final do primeiro tempo contra Pedri, Ferran Torres e outro; e continuou segurando no segundo tempo.
Sua atuação foi tão brilhante que ele foi eleito “Homem do Jogo” (Man of the Match).
Aos 40 anos, ele foi o goleiro mais velho da história a estrear em uma Copa do Mundo e manter o gol invicto (clean sheet).
Jogar contra uma equipe tão brilhante como a Espanha é, para Vozinha, empolgante:
“Gosto quando jogamos contra grandes adversários e quando jogamos em estádio cheio, porque acho que o futebol é isso, jogamos para os fãs, jogamos para as pessoas, e também queremos aproveitar o jogo, e quando temos o estádio completamente lotado, é sempre melhor para nós. Sempre sonhei em jogar em grandes estádios, jogar com grandes jogadores e contra grandes jogadores. E isso nos dá mais força e mais foco.”
No apito final do jogo, Vozinha chorou emocionado. Ele dedicou a atuação à avó e à mãe, que não pôde estar presente por problemas de visto.
Essa atuação o transformou em herói nacional e viral global. Com a ajuda de uma campanha realizada pela Cazé TV, seu Instagram explodiu de cerca de 50 mil para milhões de seguidores em poucas horas. Será que esse querido goleiro tem noção do impacto que ele ganhou na história da Copa do Mundo?
Na continuação da entrevista com Bennett, ele menciona:
“Eu não tenho palavras para descrever isso. Somos de um país que não tem muitas oportunidades, temos muitos talentos, mas para ir para a Europa, uma criança de Cabo Verde tem que passar por muitas coisas”, comenta Vozinha mencionando a dificuldade de conseguir o visto para entrar na Europa.
“Em Cabo Verde, tudo é amador… você tem, acho que 1% de chance de ter sucesso, porque nascemos em um país onde não há oportunidades, então para nós é uma grande conquista.”
A impecável campanha do Cabo Verde e de Vozinha na Copa do Mundo de 2026
A campanha de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026 foi uma das histórias mais bonitas e inesquecíveis do torneio. Em sua primeira participação, a pequena nação africana, com pouco mais de 500 mil habitantes, desafiou todas as expectativas e conquistou o mundo com sua garra e determinação .
A campanha heroica dos “Tubarões Azuis” pode ser resumida em três atos:
1. Fase de Grupos: Um Início Histórico
Ainda na fase de grupos, Cabo Verde se manteve invicto, não sofrendo qualquer derota.
Empatou por 2 a 2 com o Uruguai, mostrando resiliência e qualidade ofensiva; e empatou em 0 a 0 com a Arábia Saudita. O resultado, combinado com a vitória da Espanha sobre o Uruguai, foi suficiente para colocar Cabo Verde em segundo lugar no grupo e garantir uma vaga inédita na fase eliminatória .
Com essa campanha, Cabo Verde se tornou a menor nação da história a chegar ao mata-mata de uma Copa do Mundo, repetindo um feito que não era visto desde o Chile em 1998.
Nas oitavas de final, o desafio seria o maior possível: enfrentar a atual campeã mundial, Argentina, de Lionel Messi, em Miami . Mais uma vez, Cabo Verde mostrou que não estava lá para turismo.
A Argentina abriu o placar, mas Cabo Verde buscou o empate. Na prorrogação, a Argentina voltou a ficar na frente, mas Sidny Lopes Cabral empatou novamente com um golaço de fora da área .
A vitória argentina veio apenas com um gol contra de Diney Borges, após um desvio em um cabeceio de Cristian Romero, na segunda etapa da prorrogação. O placar final foi 3 a 2 para a Argentina.
Apesar da derrota, a atuação de Cabo Verde foi tão grandiosa que os jogadores foram aplaudidos de pé pela torcida argentina e elogiados por Lionel Messi e pelo técnico Lionel Scaloni.
Messe, o gigante capitão argentino, não escondeu a dificuldade que a seleção africana impôs. Ele destacou que não foi surpresa para eles, justamente pelo que Cabo Verde já havia feito na fase de grupos, e reconheceu que a equipe foi superada em alguns aspectos. Ele deixou claro que nunca subestimaram o rival.
“Eles conseguiram dar a alma”, “Eles nos machucaram com as suas armas”; disse Messi ao se referir à capacidade de Cabo Verde de explorar os pontos fracos da Argentina. “Eles entregaram tudo, e a gente não conseguiu igualar esse esforço físico”, continuou ele. Messi viu o time adversário como mais organizado em certos momentos.
Scaloni, técnico da seleção argentina, disse: “Hoje Cabo Verde provou que é um grande time… Eles não chegaram por acaso. Temos que respeitá-los.” Ele ressaltou o esforço imenso do time, afirmando que deram “200%” e que isso nivela qualquer jogo. Scaloni confessou que, em seus 100 jogos como técnico da Argentina, a partida contra Cabo Verde foi a que mais o marcou.
Cabo Verde saiu da Copa do Mundo com a cabeça erguida. Mais do que os resultados, a equipe mostrou ao mundo que um país pequeno pode ter um coração gigante e competir de igual para igual com os melhores. Como disse o zagueiro Pico Lopes, o legado da campanha é que “ninguém mais precisa perguntar onde fica Cabo Verde no mapa” .
As palavras de Lopes combinam a de Vozinha, ao responder uma das últimas perguntas do jornalista Bennett: “O que você quer que o mundo diga sobre Cabo Verde depois de hoje?”
“Que somos um país pequeno, mas temos corações grandes, e somos muito resilientes, e temos orgulho de ser cabo-verdianos. Depois da Copa do Mundo, todos vão saber quem é Cabo Verde e onde fica Cabo Verde.”
Graças à coragem de uma seleção estreante e à atuação inesquecível de um goleiro de 40 anos que nunca desistiu dos seus sonhos, esse desejo começou a se tornar realidade.








