Um papel, uma caneta e um desabafo — o poder de escrever sobre seus sentimentos

o poder libertador de escrever sobre seus sentimentos

Você já sentiu um peso no peito ao guardar algo que não conseguiu dizer? Aquela sensação de que um assunto inacabado continua rodando em segundo plano, consumindo energia, mesmo quando você acha que já superou?

Ou quem sabe carregou uma tristeza profunda ao lidar com assuntos fora do seu controle? Aquele desespero de ver algo acontecendo ruim e não poder fazer nada para impedir ou resolver?

Em situações tal como essas, talvez ouvir conselhos e receber conforto não seja o suficiente. Queremos algo prático para aliviarmos a ansiedade que estamos sentindo.

Compartilho com vocês nessa leitura uma curiosa pesquisa e um prática experimento que revela como o simples fato de escrever sobre suas aflições pode ser revolucionário e libertador.

O protocolo de James Pennebaker

James W. Pennebaker é um dos psicólogos mais influentes da área de psicologia da linguagem e escrita expressiva.

Professor de psicologia na Universidade do Texas em Austin, EUA, este exímio pesquisador passou três décadas estudando o que realmente acontece dentro do corpo quando processamos ou deixamos de processar nossas experiências mais difíceis.

O que motivou o professor a iniciar essas pesquisas foi identificar que algumas pessoas que viviam um trauma se recuperavam completamente. Outras, com experiências idênticas, não.

Curiosamente, a diferença não estava na gravidade do evento, tampouco na rede de apoio ou então terapia. Era algo muito mais simples e muito mais acessível.

Acontece que as pessoas que se recuperavam melhor haviam encontrado uma forma de colocar a experiência em palavras. Mas não em busca de entendimento, empatia e conforto. Apenas para transformar em linguagem aquilo que estava armazenado no corpo.

Foi então que Pennebaker desenvolveu um protocolo extremamente simples:

Durante 4 dias consecutivos, por pelo menos 20 minutos diários, escreva sobre as emoções mais profundas e as experiências mais difíceis que você está enfrentando. Sem censura, sem filtro, sem preocupação com gramática ou coerência, sem mostrar pra ninguém.

Você não precisa fazer nenhuma outra mudança no estilo de vida durante esse período. Apenas precisa escrever.

Os resultados de escrever sobre seus sentimentos

Ao testar o protocolo, Pennebaker ficou surpreso com os resultados.

Nas semanas seguintes, os participantes da pesquisa que realizaram o protocolo de escrever sobre o que lhes apertava o peito apresentaram:

  • Melhora mensurável na função imunológica
  • Redução significativa nos níveis de cortisol, o hormônio do estresse
  • Redução dos sintomas de depressão e ansiedade
  • Recuperação física mais rápida de doenças

O que Pennebaker havia descoberto era replicável, mensurável e profundamente transformador.

Pennebaker demonstrou que guardar ativamente um trauma exige um enorme esforço físico no corpo, consumindo energia continuamente e mantendo o sistema de ameaça levemente ativado o tempo todo.

A maioria das pessoas nunca aprendeu a processar a própria experiência. Elas aprenderam a seguir em frente, ser fortes, não remoer.

Mas tudo aquilo que fica guardado sem ser processado, mais cedo ou mais tarde acaba encontrando alguma forma de se manifestar, seja em ansiedade, tensão crônica e até mesmo doenças. Isso porque, em um segundo plano de seu organismo, segue rodando uma sensação persistente de algo inacabado.

O que acontece no seu cérebro ao escrever sobre o que te incomoda?

Experiências traumáticas podem continuar influenciando o corpo e o sistema nervoso por muito tempo.

O cérebro as mantém ativas porque elas nunca foram finalizadas — nunca foram nomeadas e nunca foram organizadas em uma sequência de começo, meio e fim.

Ao escrever, você força o cérebro a fazer exatamente o que ele não conseguiu fazer no momento da experiência: organizá-la.

Fisiologicamente, o caminho percorrido é o seguinte: a experiência sai da amígdala (onde a ameaça vive, no sistema límbico) e vai para o córtex pré-frontal (onde o significado vive).

O corpo para de tratar a memória como um perigo atual. O sistema imunológico para de se preparar para uma ameaça que já não está mais lá.

Escrever simplesmente fecha o arquivo não necessariamente porque a experiência foi resolvida, mas porque o processamento dela foi completado no cérebro.

O interessante da descoberta de Pennebaker é que, para essa prática de escrever funcionar, você não precisa compartilhá-la com alguém, o que você registra não precisa fazer sentido tampouco é necessário chegar a uma conclusão bonita.

Você só precisa escrever com honestidade por 20 minutos e depois fechar o caderno.

Parte importante do processamento emocional acontece durante a escrita. Não na leitura nem no compartilhamento. Consiste simplesmente em transformar em palavras aquilo que estava guardado lá no seu peito.

Isso funciona até para experiências que você acredita que já processou porque o que parece resolvido na mente nem sempre está resolvido no sistema nervoso.

A caneta encontra aquilo que a mente aprendeu a ignorar.

Pennebaker observou que algumas pessoas se sentiram pior ao escrever durante os primeiros dias do protocolo.

A escrita, de fato, mexe com aquilo que estava adormecido. Quando emoções enterradas vêm à tona o corpo se ativa em torno desse conteúdo e realmente pode causar um desconforto.

Mas sustente este incômodo. Pennebaker observou e relatou que, no quarto dia, algo muda. A ativação do corpo diminui e o o corpo solta algo que estava segurando há mais tempo do que você percebia.

Escrever é a conversa mais direta possível entre a mente e o corpo que a carrega.

A maioria das pessoas vai passar a vida inteira administrando o que carrega. As raras vão pegar uma caneta e descobrir que o corpo sempre esteve esperando permissão para soltar isso. Você e eu estaremos dentro do segundo grupo, combinado?

Se você realizar o protocolo, por favor, volte aqui depois para compartilhar conosco os resultados que percebeu! 🩷

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