Vincent van Gogh, assim como ocorre com a maioria dos que tem a arte como principal forma de expressão, tinha uma personalidade um tanto quanto intrigante.
Ele era um homem idiossincrático, com traços de personalidade, comportamentos e modos de pensar alheios ao padrão comum, bem específicos dele.
Algumas artes serenas e vibrantes de van Gogh, como “Amendoeira em Flor” e “Noite Estrelada”, transmitem uma doçura e uma vivacidade que não era exatamente o que Vincent transmitia às pessoas que conviviam com ele.
Van Gogh não era o filho exemplar, nem o vizinho agradável tampouco o homem que o pai sonhou para a filha.
A leitura de hoje vai te apresentar Vincent van Gogh; mas, desta vez, não as nuances de suas incríveis pinceladas, mas de sua intrigante personalidade.
A infância de Vincent van Gogh
A nossa personalidade é fortemente moldada de acordo com as experiências e as impressões que vivemos e desenvolvemos durante a infância.
Dito isso, Vincent Willem Van Gogh nasceu em 1853 numa pequena cidade da Holanda, pertinho da fronteira com a Bélgica.
Vincent era filho de Theodorus, um ministro protestante; e Anna, uma mulher profundamente conservadora e temente a Deus.
Dentre os seis filhos sobreviventes de Vincent e Anna, Vincent era o mais velho. Ele nasceu exatamente um ano após o primeiro filho, que também recebeu o nome de Vincent, morrer logo após o nascimento.
Conforme crescia, ele costumava visitar o túmulo do irmão morto e ficava ali sentado por longos períodos, perdido em pensamentos; algo que biógrafos frequentemente citam como uma sombra psicológica precoce ligada ao ambiente religioso/mortuário da infância.
Vincent era quieto e reservado, de personalidade séria por natureza, e passava horas vagando pelo campo sozinho. Por vezes era teimoso, mal-humorado e tinha crises de raiva.
Nos registros familiares, ele é descrito como alguém de personalidade irascível, desobediente, difícil de lidar, estranho e impertinente.
Aos 11 anos, Vincent foi enviado para um pequeno internato, que ele odiava; e aos 13, foi enviado para a prestigiosa Escola Superior Cívica (HBS) em Tilburg, que igualmente detestava.
Vincent estava entre os primeiros alunos matriculados nesta escola. Ele entrou na primeira classe com um excelente boletim de sua escola primária; e seu boletim de transição para a segunda classe, com média de 7,36, também não foi nada mau.
Uma curiosidade: nesta escola em Tilburg, Vincent teve o renomado artista Constant Huijsmans como seu professor de arte. Um dos desenhos de van Gogh sobrevive desse período. Única obra conhecida da juventude do artista, esse desenho de 28,5 x 22,5cm mostra dois esboços de um homem apoiado numa pá, assinado e datado como “V.W.v.Gogh ft 1867”. Neste arte é possível perceber o talento precoce do jovem van Gogh.
Por razões que permanecem desconhecidas até hoje, possivelmente uma crise financeira familiar, van Gogh saiu da escola repentinamente em março de 1868, na metade do segundo ano.
Muitos anos depois, em uma carta enviada para seu irmão caçula, Theo, van Gogh confessou que sua juventude foi austera, fria e estéril. Mencionou que era criticado em tudo o que fazia e que se sentia estranho e rejeitado.
A juventude e o início da vida adulta de Vincent van Gogh
Van Gogh teve seu primeiro emprego aos 16 anos. Seu tio conseguiu uma vaga para o sobrinho na filial de Haia da prestigiosa Goupil & Cie, uma empresa internacional de negociação de arte.
Ele trabalhava num cargo de aprendiz e seu cotidiano envolvia atividades bem operacionais. Como o mais jovem funcionário da empresa, Vincent era responsável por embalar, desembalar obras e supervisionar o empacotamento e a preparação de quadros para envio.
Apesar da função humilde, de início van Gogh estava muito entusiasmado, afinal, sua posição lhe permitia ter contato diário com muitas obras de arte. Intenso de personalidade, ele estudava livros, visitava galerias e lia as revistas mais recentes. Foi a primeira vez que ele realmente mostrou algum interesse no assunto.
Então, aos 19 anos, van Gogh se apaixonou por uma prima de segundo grau, que não tinha qualquer interesse amoroso nele. A partir deste episódio, a personalidade impetuosa de Vincent passou a lhe trazer problemas com a família e com seu empregador.
Acontece que Vincent não tinha uma atitude passiva quando era rejeitado, o que acontecia com uma certa frequência em sua vida. Resistente aos “nãos” que recebia, ele seguia em suas investidas de forma um tanto quanto inconveniente e desagradável, revelando um aspecto de sua personalidade que causou lhe causou vários conflitos familiares no decorrer de sua vida.
>> Conheça a vida amorosa de Vincent van Gogh nesta leitura aqui.
Com o tempo, a chama inicial da empolgação com o emprego foi se apagando. Sua transferência para a filial de Londres contribuiu ainda mais para o desgosto de van Gogh pelo trabalho uma vez que, na filial londrina, ele não tinha contato direto com obras de arte originais. No seu ponto de vista, seu ofício era monótono e enfadonho.
Neste período de sua vida tínhamos um Vincent infeliz, desiludido e com saudade de casa. Ele frequentava bordeis e tinha dificuldades financeiras, demonstrando a fragilidade de sua personalidade.
Sua relação com a empresa foi se deteriorando progressivamente. Sua aversão ao comércio de arte cresceu constantemente ao passo que seu interesse pela Bíblia aumentou intensamente.
Van Gogh foi demitido e ficou financeiramente dependente de Theo, seu irmão. Ele se revelou um funcionário difícil de lidar, pouco habilidoso para lidar com os clientes e, se não fosse o bastante, havia se ausentado por um período da empresa sem apresentar uma justificativa.
Foi nesse mesmo período que a religião tomou o lugar que o trabalho havia perdido: o novo alvo de um entusiasmo que, em Vincent, nunca vinha em doses pequenas.
O fervor religioso de van Gogh
Percebemos até agora que van Gogh tinha uma personalidade difícil de lidar e cuja vulnerabilidade emocional lhe conduzia a picos e depressões que desafiavam seus projetos e relacionamentos.
É vívida também a percepção que van Gogh procurava uma âncora e um propósito na vida que ele não encontrou no trabalho tampouco no amor.
Van Gogh era de uma família bem religiosa. Conforme conversamos há pouco, seu pai era ministro protestante e sua mãe, Anna, uma mulher bem fervorosa na aplicação de seus princípios religiosos.
Após uma nova decepção amorosa, van Gogh estava extremamente deprimido. Jo van Gogh-Bonger, a esposa de Theo, observou uma mudança marcante na personalidade do cunhado: “com essa grande dor, seu caráter mudou; quando voltava para casa nas férias, estava magro, silencioso, abatido — um ser diferente.”
Ela também o descreveu como alguém deprimido e de personalidade melancólica.
Foi quando ele começou a inclinar-se cada vez mais para uma vida reclusa e para o fanatismo religioso.
Ele tentou se estabelecer como missionário na Inglaterra chegando ao ápice de sua vida religiosa ao servir como evangelista entre os mineiros de carvão no Borinage, na Bélgica.
Ver de perto a pobreza dos homens que trabalhavam na mina afetou profundamente Vincent. A intensidade de sua personalidade é novamente percebida quando ele desistiu de morar em alojamentos e passou a dormir sob a palha.
A hierarquia da igreja não aprovou o comportamento de Vincent e o demitiu porque via o seu excesso de zelo e ascetismo extremos, tornando-se inadequados e até prejudiciais à dignidade do cargo.
Consumido por dúvidas e uma crise de fé, van Gogh afundou no desespero e se afastou de todos, mudando sua residência para a Bélgica. Por sugestão de seu irmão, Vincent começou a desenhar as pessoas ao seu redor. Isso animou seu espírito a tal ponto de ele mencionar que sua arte seria a forma como ele serviria a Deus. Ele traria consolo para a humanidade através de suas pinturas.
Algo que podemos perceber da personalidade de van Gogh analisando esta fase de sua vida é que ele nunca vivia pela metade. Com uma urgência quase desesperada, ele buscava algo a que pudesse se entregar por inteiro.
A religião ofereceu isso por um tempo, mas o mesmo traço que o levava a amar sem medida também o levava a servir sem limites, com um fervor incompreendido pelos que o rodeavam.
Seu relacionamento com os mineiros também revela que um dos traços de sua personalidade era a compaixão genuína; a mesma que, mais tarde, ele transferiria para a tela.
A personalidade revelada nas pinceladas
A decisão de van Gogh de se mudar para Paris, onde moraria com o irmão, foi a porta que abriu a a consolidação de Vincent como um artista.
Estabelecido na cidade-luz, ele conheceu importantes nomes da arte da época, como Gauguin, Pissarro, Seurat.
De posse destas novas influências, sua paleta muda quase da noite para o dia: das cores escuras do período holandês para as tonalidades vibrantes que hoje associamos a ele.
Van Gogh frequentemente usava cores intensas e brilhantes para expressar seus sentimentos e estado emocional.
Ele revelou em suas cartas: “Quero pintar homens e mulheres com aquele algo do eterno que o halo costumava simbolizar, e que buscamos transmitir através do brilho real e da vibração de nossas cores.”
Dois anos mais tarde, em Arles, no sul da França, van Gogh decidiu que a pintura seria o centro absoluto de sua existência.
Em Arles, a criatividade artística de Van Gogh explodiu. Ele pintou de tudo: pessoas, lugares, paisagens, cidades, flores, frutas, tudo!
Vincent sonhava em fundar ali uma colônia de artistas e sua personalidade imediatista logo deu realidade à esse desejo. Ele convenceu Theo a bancar a vinda de Gauguin para morar com ele na Casa Amarela, depositando nessa amizade a mesma esperança desesperada de pertencimento que já havíamos visto em outros momentos de sua vida.
A convivência começou bem, mas os temperamentos e visões artísticas divergentes dos dois logo geraram atritos frequentes. Na noite de 23 de dezembro de 1888, depois de uma discussão intensa, Vincent teria perseguido Gauguin com uma navalha antes de virar a lâmina contra si mesmo, mutilando a própria orelha esquerda. Ele embrulhou o pedaço decepado em papel e o entregou a uma mulher num bordel local.
As circunstâncias exatas daquela noite são debatidas até hoje, mas o episódio expõe com clareza brutal um aspecto de sua personalidade que já vínhamos rastreando ao longo de toda a vida de Vincent: quando a intensidade emocional não encontrava vazão ou reciprocidade, ela se voltava contra ele mesmo.
Van Gogh entra em colapso
O estado mental de van Gogh estava se deteriorando.
Houve um período em que seus vizinhos assinaram uma petição para que ele fosse internado em um hospital psiquiátrico. Acusações contra Vincent incluíam o fato de ele tocar e apalpar mulheres da vizinhança, fazer comentários obscenos na presença delas, entrar em casas alheias e estar constantemente bêbado.
Ele foi apelidado pelos moradores de “fou roux” (o louco ruivo) e crianças atiravam pedras nele na rua.
Humilhado pela cidade que passou a temê-lo e sem forças para continuar se defendendo de acusações que ele próprio dizia não reconhecer em si, Vincent tomou uma decisão que talvez só ele pudesse tomar: internar-se por vontade própria.
Foi um período de contrastes extremos: entre crises que o deixavam à beira da desintegração, ele produziu algumas de suas obras mais icônicas, como “Noite Estrelada” e “Íris”. A pintura não era, para ele, a cura mágica para o sofrimento; mas o fio que o mantinha de pé quando quase tudo o mais desmoronava.
Essa personalidade persistente o acompanhou até o fim. Em seus últimos setenta dias de vida, já morando em Auvers-sur-Oise sob os cuidados do Dr. Gachet, Vincent chegou a produzir cerca de 80 pinturas — um ritmo de trabalho quase inacreditável, mesmo para os padrões já intensos de sua carreira.
Onde muitos teriam desistido, ele insistia. A tela continuava sendo o único lugar onde sua urgência interior encontrava, enfim, algum destino.
Vincent van Gogh morreu em 29 de julho de 1890, em Auvers-sur-Oise, aos 37 anos, por infecções oriundas de um ferimento à bala que ele mesmo desferiu contra seu abdômen, um desfecho trágico de uma vida inteira de excessos e picos emocionais que ele nunca conseguiu domar.
Olhando para trás, é difícil não enxergar um único fio conduzindo cada capítulo dessa história: o menino que sentava junto ao túmulo do irmão morto, o rapaz que não aceitava um “não”, o funcionário incapaz de fingir entusiasmo por um trabalho que não amava, o evangelista que deu as próprias roupas aos mineiros, o artista que pintou um número recorde de telas em meio a um colapso mental. Em cada fase, o mesmo traço: uma entrega total, sem meio-termo, sem reservas.
Foi esse traço de personalidade que o afastou de empregos, de amores, da igreja, e por fim, da própria cidade que passou a temê-lo.
Mas foi esse mesmo aspecto de sua personalidade, incontido e visceral, que transbordou nas telas através das pinceladas grossas, das cores que gritavam o que ele não conseguia dizer em palavras, dos céus que giravam como sua própria mente.
Hoje, mais de um século depois, é justamente essa intensidade — a mesma que o consumiu em vida — que nos comove diante de suas obras, e que faz de Vincent van Gogh não apenas um dos maiores pintores da história, mas um dos retratos mais humanos e comoventes de como a genialidade e o sofrimento, por vezes, nascem da mesma fonte.








