A dor de um coração partido

O término de um relacionamento pode causar a dor emocional definida como síndrome do coração partido. Quão avassaladora é essa dor? Como superar o término de um relacionamento?

No inverno de 2004, cerca de um mês após um grande terremoto abalar todo o país, deixando 4.805 pessoas feridas e matando 68, mulheres começaram a chegar aos hospitais japoneses queixando-se de dor no peito e falta de ar. Nas salas de emergência, os médicos as conectaram a monitores de eletrocardiograma e viram o mesmo comportamento identificado em ataques cardíacos. No entanto, testes subsequentes mostraram que suas artérias coronárias não estavam bloqueadas, descartando o diagnóstico. Em vez disso, seus corações mudaram de forma. Não demorou muito para que esses casos fossem classificados como cardiomiopatia de takotsubo, ou síndrome do coração partido.

Um coração partido literalmente dói. Após um evento emocionalmente traumático, os hormônios do estresse causam um enfraquecimento do ventrículo esquerdo, o que significa que ele não consegue mais bombear com eficácia. É uma dor visceral, como se o acelerador e os freios do coração fossem acionados simultaneamente.

Como se expressam as pessoas que passam por essa dor?

Um coração despedaçado

Design de Channning Smith

Ziella Bryars, escritora e produtora, há muitos anos atrás foi acometida pela primeira vez pela dor do coração partido. “Não me senti apenas triste, confusa e chorosa, mas também fisicamente doente. Lembro-me de estar sentada em uma lanchonete com minha melhor amiga, alguns dias depois do meu rompimento, olhando para meu prato de comida, incapaz de comer. O cheiro da comida, até mesmo a ideia dela, era completamente desanimador. Não sou alguém que perde uma refeição, mas lá estava eu, com enjoo no estômago. Não achei que iria literalmente correr para o banheiro para vomitar.”

Annie Lord teve seu coração partido quando, numa noite em Euston Road, Londres, seu namorado disse que “precisava ficar sozinho”. Seu livro, Notes of a Heartbreak, surgiu de uma longa carta de amor que ela escreveu para ele depois, mas nunca enviou. A fim de explorar a sua dor, Annie revisitava as lembranças do relacionamento. A escritora conta que olhava pela janela e ao ver pessoas andando pela rua, achava impossível aceitar que a maioria delas já tinha passado por essa dor. “Como o mundo ainda funciona?”, se perguntava.

Ao ler o livro A Grief Observed (Anatomia de uma dor), onde C.S. Lewis discorre sobre seu luto com a perda da esposa, Annie percebeu que sua semelhante dor vinha da frustração de tantos impulsos antes habituais. Ela esperava por algo que nunca aconteceria. “Ele aparecer no corredor pedindo onde estão as toalhas ou sentir a perna dele me bater na cama… Dizer ‘Estou passando por um rompimento’ não fazia justiça ao que eu sentia. Parecia muito pequeno, muito comum.’”

Quando passamos pela dor do término de um relacionamento, perdemos não apenas a pessoa, mas tudo o que a acompanhava. É como se passássemos a questionar nossa identidade. Você não é mais a dupla. Quando iniciamos um relacionamento, formamos uma espécie de nova identidade com a pessoa com quem estamos. Realizamos atividades juntos e até sincronizamos pensamentos. Somos levados a criar algo novo e positivo, visualizamos um futuro próspero com o amado. Quando terminamos, essa identidade fica confusa. Como é angustiante ver este mar de expectativas desaparecer repentinamente.

O coração partido clinicamente

A antropóloga e bióloga Helen Fisher estudou pessoas que passaram pelo rompimento de um relacionamento amoroso e descobriu que as partes do cérebro ativadas eram as mesmas associadas ao vício. Uma pessoa rejeitada sente os mesmos tipos de dor e desejo que sentiria com drogas e álcool – ela passa por abstinência e pode igualmente ter uma recaída, até muitos meses depois, com um reencontro casual na rua ou uma notificação no celular.

“Um coração partido”, disse o pesquisador genômico Steven Cole, “é uma das minas terrestres ocultas da existência humana.” Escondido na vegetação rasteira dos nossos relacionamentos, explode num momento inesperado – durante o jantar, nas férias, numa comemoração, depois de assistir a um filme.

Não é um melodrama. Um coração partido é uma das experiências mais dolorosas que alguém pode enfrentar. Uma pessoa que vive esta dor tem dificuldade para trabalhar e consegue cumprir apenas as tarefas essenciais.

Será que alguém pode morrer de amor? Pesquisadores documentaram que o pesar de um coração partido se assemelha à dor do luto: sono fragmentado, aumento da ansiedade, falta de controle dos impulsos, depressão, declínio cognitivo, comprometimento da função imunológica, problemas digestivos, dores no corpo, expressão genética alterada e morte precoce.

“Nossas células escutam a solidão. Isso realmente me surpreendeu. E explica porque as pessoas que passam por um grande rompimento enfrentam maior risco de mortalidade precoce e uma série de doenças, especialmente se não trabalharem duro para processar a dor”, explica a jornalista e escritora Florence Williams.

Quando esta dor peculiar é estudada, as descobertas são muitas vezes tão chocantes e poéticas quanto a arte que a inspira. Quando escaneado, as partes que se iluminam no cérebro de uma pessoa com o coração partido são as mesmas de quem sofreu uma queimadura. Como a dor de estender a mão e sentir o cheiro de fumaça.

Como fica o cérebro de alguém com o coração partido?

As primeiras pesquisas sobre o cérebro e o amor foram feitas por volta de 2005. Em um estudo liderado pelo psicólogo Art Aron, pela neurologista Lucy Brown e pela antropóloga Helen Fisher, indivíduos que estavam profundamente apaixonados visualizaram imagens de seus amados e, simultaneamente, tiveram seus cérebros escaneados em uma máquina de fMRI, que mapeia a atividade neural medindo mudanças no fluxo sanguíneo cerebral. Os tons vívidos de amarelo, verde e azul da fMRI indicaram claramente que o amor romântico é ativado no núcleo caudado através de uma inundação de dopamina.

Em 2010, a mesma equipe que usou a ressonância magnética para explicar o melhor do amor dedicou um estudo para avaliar o pior do amor. Eles reuniram um grupo de indivíduos que estavam nos primeiros estágios de um rompimento. Todos relataram que pensavam no seu ex aproximadamente 85% de suas horas de vigília e ansiavam estar com ele novamente. Além disso, todos esses apaixonados alegaram sinais de falta de controle emocional por semanas ou meses após o término. Isto incluía telefonar, escrever, enviar mensagens inadequadas, implorar por reconciliação, chorar durante horas e até beber demais. Em outras palavras, cada uma dessas almas desoladas estava mal.

O estresse da rejeição, da traição e da perda leva à liberação do hormônio do estresse, o cortisol. O cortisol extra em momentos de perigo é extremamente útil. Ativa nossos corpos e nos prepara para nos defender ou fugir do local. O processo de luta ou fuga funciona assim: a mente percebe a ameaça, o corpo ouve o pedido de ajuda e libera hormônios do estresse em reação ao perigo.

Mas diante do término de um relacionamento, quando há esta liberação de cortisol, não precisamos literalmente lutar ou correr para salvar nossas vidas. Portanto, nossos corpos sentem efeitos colaterais desagradáveis. Nossos músculos, que não precisaram ser usados para afastar o urso polar ameaçador, podem ficar tensos, produzindo dor e sofrimento. Se você sente que foi atropelado por um caminhão, talvez seja por isso.

Os corações partidos também anseiam pelo neurotransmissor e hormônio dopamina, gerado pelo corpo quando estamos apaixonados, conforme a pesquisa anteriormente citada mostrou. A dopamina é produzida no centro de recompensa do cérebro, a área que gera prazer e motivação. Além da sensação de êxtase, a dopamina também produz energia, impulso e concentração, induzindo-nos a continuar buscando por mais e mais dessa sensação, mais doses de recompensa e prazer.

Quando passamos pela dor do rompimento de um relacionamento, as regiões do cérebro que antes eram estimuladas a produzir dopamina não se acalmam instantaneamente tampouco diminuem a excitação. Elas permanecem ativadas. Parte da luta inicial de um coração partido é que, pelo menos dentro do cérebro, as regiões ativadas pelo amor seguem funcionando. Porém, sem receber a recompensa almejada.

Assim, temos os efeitos colaterais desagradáveis do cortisol e os sinais confusos no centro de recompensa do nosso cérebro para continuar tentando obter essas doses de prazer. Essa combinação provavelmente nos fará sentir não apenas fisicamente péssimos como também emocionalmente confusos.

Outro estudo que explorou a conexão físico-emocional da dor do rompimento submeteu indivíduos a tocarem uma sonda quente enquanto olhavam para fotos de seu ex-parceiro. Os resultados confirmaram que a rejeição emocional e a dor física estão enraizadas exatamente nas mesmas regiões do cérebro. Então, quando você diz que está com o coração partido por causa do rompimento de um relacionamento, você não está apenas se apoiando numa metáfora. No que diz respeito ao seu cérebro, a dor que você sente não é diferente de uma facada.

É possível superar a dor de um rompimento com remédio?

Uma vez que a dor física e a dor emocional viajam pelos mesmos caminhos cerebrais, teoricamente isso significa que elas podem ser tratadas da mesma forma. Pesquisadores mostraram recentemente que o paracetamol, encontrado em velhos medicamentos como Dipirona e Tylenol, reduz a experiência da dor de um coração partido.

Mas alguns especialistas argumentam que no momento em que você coloca o dedo do pé na ladeira escorregadia de tomar pílulas para se sentir melhor emocionalmente, você deve se questionar se isso contorna o plano da natureza. Para viver a experiência, aprender com a dor e não repetir velhos erros, é essencial se permitir sentir mal, ruminar este sentimento e meditar no que deu errado. “No pain, no gain.”

Como superar o término de um relacionamento

Vai doer, não se iluda com a ideia de que você poderá escapar do pesar. Mas uma prática calmante é aceitar como você se sente. Esta é uma estratégia retirada da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). A ideia é focar sua mente em uma afirmação simples que articule seus sentimentos, como “Não há problema em se sentir triste” ou “Você não é o único que está passando por isso” ou “Não há problema em amar alguém com quem você não está mais”. Nesses momentos, aceitamos nossos sentimentos como legítimos, não bobos ou prejudiciais.

Um estudo do Laboratório de Neurociência de Emoção e Motivação da Universidade de Missouri-Sr Louis, dos Estados Unidos, usou este método com indivíduos com o coração partido e descobriu que concentrar-se nesse tipo de frases por alguns segundos de cada vez diminuiu a atenção motivada para o ex-parceiro, o que significa que os participantes ficaram menos absortos em seu destruidor de corações e um pouco mais livres para seguir em frente. Não que essas pessoas deixassem de ficar tristes ou com os corações partidos, mas estavam menos obcecadas pelo ex.

É um método simples, mas eficaz, que permite ao praticante concentrar-se no presente sem conquistar nada. Encontre um local tranquilo, proporcione a si mesmo este momento de paz e concentre-se em um sentimento simples e real, sem criticá-lo, simplesmente permitindo que ele penetre e descanse ali por um momento.

Permita-se chorar e lamentar pela perda. É uma forma importante de liberar um pouco da tristeza que você está sentindo. Já ouviu um ditado que diz que a dor vem em ondas? É provável que essas ondas venham e vão, e é claro que você não vai querer chorar ao participar de uma reunião no escritório ou no ônibus lotado no caminho de volta para casa. Mas não reprima a tristeza. Quando sentir que as ondas da tristeza te atingiram, a melhor coisa que você pode fazer é chorar e desabafar sobre o quão terrível está se sentindo.

Um estudo identificou fortes associações entre atividade física e redução do sofrimento psicológico, mesmo em exercícios leves como limpeza ou jardinagem. Sei que você já sabe disso, mas a verdade é que pode ser difícil motivar-se para se tornar ativo quando está com o coração partido. Não se culpe nem estabeleça metas irrealistas. Metas simples e suaves, como tentar fazer uma caminhada de dez minutos por dia, podem ajudar. Quando se exercita e aumenta a frequência cardíaca, seus níveis de cortisol diminuem e, mesmo que seja apenas uma pequena quantidade de cada vez, pode ajudar a aliviar os efeitos desagradáveis do estresse que está enfrentando.

Estudos recentes que acompanharam grupos de participantes caminhando em espaços verdes abertos registraram que aqueles que caminhavam na natureza, em oposição aos que estavam em ambiente urbano, tiveram um maior aumento nas endorfinas e uma maior diminuição nos níveis de cortisol. Ou seja, apenas caminhar em áreas verdes pode ajudar a suavizar seu humor.

Outra maneira de acalmar sua mente após o rompimento de um relacionamento é por meio da técnica de distração. O estudo antes mencionado da Universidade de Missouri-Saint Louis reuniu homens e mulheres com o coração partido e testou o uso da distração para aliviar o sofrimento. Os participantes foram convidados a distrair suas mentes com tópicos não relacionados ao rompimento, como suas músicas ou filmes favoritos ou lugares para onde gostariam de viajar. Os resultados mostraram que o exercício teve um impacto positivo em suas emoções e humor.

Essa técnica de distração não quer dizer que você não deva pensar no relacionamento que terminou. Tal método não visa suprimir memórias ou enterrar seus sentimentos, mas sim redirecionar seus pensamentos quando algo está se repetindo em sua mente. É claro que você ainda pensará naquela pessoa, mas se esses pensamentos forem demasiadamente opressores, é bom dar um descanso à sua mente.

Vai passar! Para alguns pode levar mais tempo do que para outros, mas tenha convicção que essa dor não vai durar para sempre.

Certa vez li sobre os sentimentos de uma pessoa que estava enfrentando uma grande dor emocional. Ela sentia que uma parte dela estava faltando. Mas ela comparou sua situação a um lápis de cor. E finalizo essa leitura com uma emocionante frase que ela citou: “Um lápis quebrado também consegue colorir.”

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