Você tem medo do silêncio?

Por que as pessoas não gostam de ficar em silêncio?
O silêncio deixa você desconfortável? Você precisa estar na companhia de um barulhinho pra se sentir melhor? Tenho certeza que você vai aprender muito com esta leitura.

O silêncio da casa é quebrado com o som do alarme. Desligo o despertador do celular ao acordar e percebo, dentre as dezenas de notificações, sugestões de conteúdo do YouTube

“Hum, este título é interessante!” Aperto para reproduzir o vídeo enquanto vou ao banheiro fazer xixi e lavar o rosto.

Ao preparar o café da manhã, aproveito o tempo para ouvir algumas mensagens de áudio do WhatsApp.

Ao tomar meu cafezinho, dou uma olhada nos stories do Instagram.

A caminho do trabalho, ligo para minha mãe para saber como estão as coisas.

No escritório, coloco os fones de ouvido para ouvir um podcast enquanto realizo uma atividade bem rotineira.

Fim do dia. Tenho que de dar uma ajeitada na casa. “Vai ficar menos massante se eu fizer enquanto assisto uma série”, penso eu. E aquele barulhinho fica no ambiente enquanto realizo as atividades.

Hora do banho. Coloco minha seleção de músicas para tocar como trilha sonora das tarefas finais do dia.

Esta não é exatamente a minha rotina, mas pode ser que você tenha se identificado parcialmente com alguns rituais diários, estou certa?

Em essência, dentre as variações de como usamos nossas 24 horas diárias, acredito que estamos unidos em pelo menos um comportamento: não estamos dando espaço para o silêncio. Concorda comigo?

Por que não gostamos do silêncio?

Qual é a importância de nos permitirmos ficar em momentos silenciosos?

Por que evitamos o silêncio?

“Quando não há barulho no meu quarto, fico assustado”, disse um dos 580 estudantes de graduação que participaram de um estudo conduzido por Bruce Fell, professor da Universidade Charles Sturt, na Austrália. 

“A falta de barulho me deixa desconfortável, na verdade parece um mau presságio”, disse outro. “Comecei a fazer uma tarefa na biblioteca e tive que voltar para o meu quarto minutos depois para pegar meu iPod. A biblioteca estava tão silenciosa que não conseguia me concentrar adequadamente!”

Este estudo foi realizado em 2013. Na mais de uma década desde então, a tendência só se intensificou, especialmente com a onipresença dos dispositivos inteligentes e streamings de tudo. 

Vivemos submersos em um mundo que tende a oferecer um fluxo ininterrupto de entretenimento desde o despertar até o adormecer. Tornou-se quase impossível não ter coisas apitando, falando ou sinalizando para nós.

É raro ter mais do que alguns minutos por dia para simplesmente relaxar, descansar, refletir e até sonhar acordado. Quanto mais incomuns são esses tipos de momentos, mais desconfortáveis ​​eles se tornam para nós.

Talvez seja por isso que, num estudo publicado na revista Science, investigadores da Universidade da Virgínia descobriram que 25% das mulheres e 67% dos homens preferiam aplicar choques elétricos em vez de ficarem sentados sozinhos sem fazer nada numa sala de laboratório vazia durante 15 minutos, sem acesso a distrações externas.

Outra razão pela qual nos sentimos desconfortáveis ​​com o silêncio é que esta condição raramente nos foi apresentada durante nossas vidas. 

Vim de uma família grande, somos três irmãs e um irmão. Como resultado, eu estava constantemente rodeada de barulho. Momentos de silêncio eram raridade em nosso lar.

Algumas pessoas estão tão acostumadas com o barulho que temem a ideia de viver no campo, rodeadas da paz da natureza, uma vez que, para elas, um ambiente sonorizado pelos barulhos do trânsito e sirenes tocando a cada dez minutos é totalmente normal.

Muitas pessoas ficam ansiosas quando há um silêncio incômodo em situações sociais.

Um estudo publicado no Journal of Experimental Social Psychology descobriu que conversas fluentes estão associadas a sentimentos de pertencimento, autoestima e validação social. 

Por outro lado, se mesmo um breve silêncio interromper esse fluxo, emoções negativas e sentimentos de exclusão podem surgir.

Uma outra pesquisa, esta da Universidade de Groningen, na Holanda, descobriu que são necessários apenas quatro segundos de silêncio numa conversa para que os americanos se sintam rejeitados ou inseguros. 

Como resultado desse medo do julgamento, acabamos preenchendo o vazio com conversa fiada ou entretenimento externo.

Há outra razão importante que explica o assombro que o silêncio nos causa.

Podemos estar usando o barulho para fugir da realidade.

O silêncio abre a porta para uma série de pensamentos, sensações e emoções que o ruído mantém sob controle. E isso pode ser assustador.

“Muitos de nós temos um mundo de sentimentos que não foram sentidos”, diz Cristie Newhart, Reitora da Escola de Yoga Kripalu. “Podemos nos sentir solitários, tristes ou pesarosos. O mundo exterior é uma grande distração para esses sentimentos e, quando estamos em silêncio, eles se manifestam.”

O silêncio nos obriga a perceber nossos pensamentos automáticos – aqueles que não podemos evitar e que habitualmente pensamos, principalmente aqueles que lançam uma luz fria sobre nossos medos e inseguranças.

Pois é . . . O silêncio muitas vezes nos desperta para a verdade – verdades que talvez não queiramos reconhecer.

No entanto, prestamos um grande desserviço a nós mesmos quando fugimos deste desconfronto. Verdades surpreendentes, inspiradoras e vivificantes podem ser encontradas no silêncio.

E isso é apenas o começo dos benefícios.

Benefícios do silêncio

Além da genialidade, sabe algo que Isaac Newton, Albert Einstein, Henry Cavendish, James Clerk Maxwell e Paul Dirac tinham em comum? Eles ansiavam pelo silêncio. Estes cientistas trabalharam quase inteiramente sozinhos e em silêncio.

Sim, o silêncio é um terreno fértil para revelações. Vou relatar, a seguir, alguns dos benefícios do silêncio.

  • Aumenta a concentração. Quase sempre perdemos o foco quando o som atinge cerca de 80 decibéis. Um ambiente silencioso ou com um mínimo de ruído de fundo ajuda a maximizar a concentração.

  • Aumenta a autoconsciência. A rede de modo padrão no cérebro é ativada quando estamos em silêncio. Há duas redes cerebrais – a de modo padrão e a de modo extrínseco. A rede padrão entra em cena quando as pessoas refletem sobre assuntos que envolvem elas mesmas e suas emoções. No modo padrão, o cérebro integra o consciente e o subconsciente, ajudando a construir uma nova memória muscular, digerir novos conceitos e absorver novos esclarecimentos. O silêncio também auxilia na consciência interoceptiva, ou seja, a capacidade de perceber nossas sensações físicas, como batimentos cardíacos, respiração, saciedade e atividade autonômica relacionada às emoções.

  • Melhora o aprendizado e a produtividade. Pesquisas indicam que quanto mais ruído uma criança está exposta, pior é o seu desempenho na escola e mais difícil é para ela concentrar-se enquanto trabalha. Por outro lado, um estudo publicado pela Biblioteca Nacional de Medicina descobriu que duas horas de silêncio por dia poderiam criar novas células no hipocampo, uma área do cérebro ligada à aprendizagem, à memória e à regulação emocional. Outros estudos reforçaram isto, acrescentando que o silêncio, mais do que a música ou o ruído branco, produz o maior crescimento destas células.

  • Desestressa e proporciona uma sensação de calma. De acordo com o Instituto Americano de Estresse, cerca de 77% das pessoas sofrem de estresse que afeta sua saúde física e 73% das pessoas sofrem de estresse que afeta sua saúde mental. Foi demonstrado que dois minutos de silêncio aliviam a tensão no corpo e relaxam a mente muito mais que música relaxante. Descobriu-se também que o silêncio melhora significativamente os estados de humor e altera a percepção do tempo e a orientação para o momento presente.

  • Tem um impacto direto e positivo no corpo. O silêncio reduz a pressão arterial, evita a formação de placas nas artérias, estimula o sistema imunológico do corpo, promove uma boa regulação hormonal e a interação dos sistemas relacionados aos hormônios corporais.

Pratique o silêncio

Por que temos medo do silêncio?

O medo do silêncio é um comportamento aprendido. Se esse medo pode ser aprendido, também pode ser desaprendido, concorda?

Adquira fones de ouvido com cancelamento de ruído e, por vezes, experimente renunciar à música. Você pode aprender algo novo com todo esse crescimento de células neuronais.

Se você estiver na companhia de alguém e o silêncio pairar sob o ambiente, deixe de vê-lo como um fracasso ou um sinal de problema. O silêncio é simplesmente uma oportunidade para fazer uma pausa, refletir e reunir pensamentos; ou para observar, absorver, digerir e processar.

Use o silêncio para ficar mais confortável consigo mesmo e com os outros, em vez de ficar ansioso e desconectado.

“O silêncio é uma fonte de grande força”, disse Lao Tzu, filósofo e escritor da Antiga China. Mas é preciso algum esforço para construir esse músculo. O silêncio em si não é estranho. É como respondemos ao silêncio que pode fazer com que pareça assim.

Aprender a abraçar o silêncio, em vez de lutar contra ele, é extremamente fortalecedor.

Pode levar 500 milissegundos, ou meio segundo, para que a informação sensorial do mundo exterior se integre na nossa experiência consciente, mas muitas vezes, e por boas razões, sentar-se em silêncio prolongado pode levar a conexões mais significativas e a uma experiência de vida bem mais saudável.

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