“De gênio e de louco, todo mundo tem um pouco”. Esta frase combina bem com o artista holandês Vincent van Gogh, que combinava sua genialidade com pertinentes dúvidas sobre sua saúde mental.
Quase tão conhecido como suas pinturas é o episódio em que o artista holandês Vincent van Gogh, num ato impetuoso e inconsequente, decepou a própria orelha em um surto psicológico.
Já comentamos por aqui que van Gogh tinha um jeito difícil de lidar e uma personalidade um tanto quanto idiossincrática. Por muitos ele é visto como um gênio atormentado — a mesma mente que o guiava para a produção de obras incríveis era a mente que o conduzia a lugares escuros e inóspitos, chegando a fazê-lo declarar a clássica frase: “A tristeza durará para sempre.”
No decorrer do seu breve tempo de trinta e sete anos de vida, van Gogh apresentou sintomas que fizeram muitos o classificarem como louco. Ele mesmo espontaneamente providenciou a sua internação em uma clínica psiquiátrica no final de sua vida.
Com o passar dos séculos, a Medicina encontrou respostas para algumas manifestações físicas e mentais que tanto atormentavam van Gogh. Na leitura de hoje vamos tentar entender todos os delírios deste genial e incompreendido artista.
Uma criança quieta e colérica
Estranho e rejeitado.
Era assim que Vincent van Gogh se sentia desde a tenra idade.
Vincent era o mais velho dos seis filhos sobreviventes de Theodoros e Anna. Quieto e reservado, ele gostava de passar horas sozinho vagando pelo campo.
Por vezes ele era um menino teimoso, mal-humorado e tinha crises de raiva. Nos registros familiares, ele aparece como irascível e desobediente, difícil de lidar, estranho, mal-educado e impertinente.
O frescor e vigor da juventude não transformaram a sua personalidade. Ao descrever esse período de sua vida, em certa carta enviada para o irmão mais jovem, Theo, ele disse que foi uma época: “austera, fria e estéril.”
Os primeiros sinais
Engana-se quem pensa que a saúde mental de Vincent van Gogh começou a colapsar no episódio da orelha cortada.
Os sinais vinham de muito antes e apareciam como um certo padrão em sua vida.
Vincent tinha dificuldade crônica de se relacionar, a tendência a se desentender com quase todos ao seu redor, incluindo a própria família, e explosões emocionais que ele nunca aprendeu a moderar.
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Van Gogh acumulou grandes decepções em sua vida.
A começar, seu irmão mais velho, natimorto, nasceu exatamente um ano antes que ele. Eles receberam o mesmo nome, Vincent. O pequeno van Gogh, inclusive, costumava visitar o túmulo do irmão e ficava ali sentado por longos períodos, perdido em pensamentos jamais mencionados em seus vários registros.
Ademais, ele odiava a escola e raramente se empolgava em algum projeto. Suas tentativas de ser comerciante, ministro religioso e entrar para a faculdade de teologia e artes não resultaram em nada.
Suas obras de arte tinham pouca aceitação e muitas críticas negativas. Sua consagração como artista só aconteceu bem depois de sua morte.
Sem falar de todas as suas frustrações e decepções em sua vida amorosa.
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Em um desses casos, quando ele se apaixou por Eugenie Loyer e foi prontamente rejeitado, ele se tornou retraído, parou de comer, negligenciou a aparência e ficou meses sem escrever para os pais.
No período de sua vida quando ele ficou obcecado por religião, ele mergulhou numa crise espiritual tão profunda que abandonou o próprio conforto, passou a dormir sobre palha e, ao ser demitido pela igreja, afundou em desespero e se afastou de todos. “Eles pensam que sou um louco”, disse a um conhecido, “porque queria ser um verdadeiro cristão.”
Arles: a saúde mental de van Gogh começa a desmoronar de verdade
Foi em Arles, uma cidade no sul da França, o quadro de insanidade mental de van Gogh se tornou inegável.
Nesta época, Vincent já estava estabelecido como artista, ocupando seu tempo de forma integral à pintura de telas.
Van Gogh tinha o sonho de montar um ateliê de artistas e seu projeto estava se tornando real com a inauguração da Casa Amarela, onde ele trabalhava em suas artes na companhia do também pintor Paul Gauguin.
No entanto, seu gênio explosivo acompanhado de sua deficiente saúde mental resultou num forte desentendimento com Gauguin. Foi nesta célebre noite de 23 de dezembro de 1888 que Vincent van Gogh decepou a própria orelha e, conforme a lenda, a embrulhou em um papel e a entregou para uma mulher num bordel.
Após o episódio, van Gogh foi encontrado inconsciente e levado ao hospital. Ele mal conseguia lembrar do ocorrido.
Os relatos médicos desse período são de cortar o coração: episódios de ansiedade e agitação intensa, alternando com choro ou mutismo completo.
Com alucinações vívidas e paranoia intensa, van Gogh chegou a gritar com vozes imaginárias que o acusavam de crimes terríveis. A saúde mental de van Gogh estava tão mal que ele precisou ser colocado em cela acolchoada e amarrado à cama para sua própria segurança.
O diagnóstico da época foi “mania aguda com delírio generalizado”.
Não muito tempo depois, van Gogh teve uma recaída ainda mais grave quando ele parou de comer, ficou atormentado por vozes acusadoras e imagens aterrorizantes, convencido de que estava sendo envenenado.
Foi quando ele precisou ser levado de volta ao hospital pela polícia.
O ciclo se repete em Saint-Rémy
Ao longo dos doze meses seguintes, internado voluntariamente no asilo de Saint-Rémy, o padrão cíclico da saúde mental de Vincen van Gogh ficou ainda mais claro.
Ele teve pelo menos seis episódios distintos de crise, alguns durando semanas, outros meses; sempre alternando entre calma e colapso total. Num deles, chegou a ser encontrado inconsciente, espumando pela boca, depois de tentar comer tinta.
Um dos episódios mais estranhos é descrito assim: ele estaria trabalhando perfeitamente calmo numa tela e, com a mesma repentinidade com que começava, se acalmava e voltava a pintar como se nada tivesse acontecido.
Nas palavras que ele mesmo escreveu para a cunhada Jo, a esposa do irmão mais novo Theo, ele descreveu tal agitação interior da seguinte forma: “Às vezes, estados de angústia indescritível, às vezes momentos em que o véu do tempo e da fatalidade das circunstâncias parece ser rasgado por um instante.”
Auvers: a calmaria que escondia o fim
Depois de doze meses de crises cíclicas de transtornos de sua saúde mental, Vincent parecia, finalmente, estabilizado.
Em maio de 1890, van Gogh escreveu ao irmão contando ter superado o pior e que os ataques outrora vivenciados dificilmente voltariam.
Então, Vincent mudou-se para Auvers-sur-Oise, onde ficou sob os cuidados do Dr. Gachet. Foi ali que ele viveu ali seus últimos dois meses, aparentando uma estabilidade rara em sua saúde mental: pintava um quadro por dia, recebia elogios de nomes como Claude Monet, e teve sua primeira venda.
Mas por trás dessa aparente calmaria, algo silenciosamente se deteriorava.
Suas cartas começaram a trazer sinais de alerta que contrastavam com o otimismo recente: “Sinto-me um fracasso, e a perspectiva fica mais escura. Não vejo futuro feliz algum.”
Não houve mais episódios dramáticos e visíveis como os ocorridos em Arles e Saint-Rémy, onde ele relatava vozes, alucinações e enfrentava crises de dias inteiros.
O que havia, dessa vez, era algo mais calado e talvez por isso, mais perigoso: um desespero que ele conseguia esconder por trás da rotina normal de pintar todos os dias.
Em 27 de julho de 1890, Vincent van Gogh saiu como de costume, com cavalete debaixo do braço e tintas dentro da bolsa.
Horas depois, muito mais tarde do que o habitual, ele voltou segurando o estômago e subiu cambaleando até seu quarto. Ele acabara de se ferir com um tiro autoinfligido.
No dia seguinte, ao ser questionado pela polícia, ele apenas respondeu: “Meu corpo é meu e sou livre para fazer com ele o que quiser.” Dois dias depois, com o irmão Theo ao seu lado, Vincent van Gogh morreu de infecções decorrentes do ferimento no abdômen. Ele tinha apenas trinta e sete anos de idade.
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O que essa fase final revela é talvez o aspecto mais perturbador de toda a saúde mental de Vincent: diferente das crises anteriores, visíveis e violentas; o colapso que o levou à sua morte não veio precedido de sinais óbvios para quem estava por perto. Foi um desespero que se instalou por dentro, silenciosamente, enquanto por fora tudo parecia, enfim, estar bem.
A pintura como o único fio de estabilidade
Dentre todos esses episódios de colapso de saúde mental, um padrão se destacava como consistente: mesmo nos momentos mais sombrios, era a arte que o mantinha de pé.
“Trabalho como um possesso. Tenho uma fúria monótona de trabalho”, escreveu ele em um dos períodos mais produtivos. Ele acreditava que só a pintura poderia salvá-lo — e, ao mesmo tempo, temia que a loucura permanente estivesse se aproximando, e que ele fosse perder até essa última âncora.
Inclusive foi num período que ele estava dentro do asilo quando ele viveu sua fase mais prolífica: criou mais de 150 desenhos e cerca de 150 pinturas, incluindo sua famosa obra “Íris”.
O que realmente aconteceu com Vincent van Gogh?
Aqui está o ponto mais intrigante de toda essa história: mais de um século depois, ainda não existe consenso sobre o que Van Gogh realmente tinha.
As teorias propostas ao longo dos anos incluem esquizofrenia, transtorno de personalidade emocionalmente instável, transtorno bipolar, transtorno esquizoafetivo — e também causas orgânicas: envenenamento por chumbo, epilepsia do lobo temporal, porfiria, sífilis, intoxicação por absinto, síndrome de Wernicke-Korsakoff.
Em 2016, um simpósio de especialistas médicos e psiquiátricos debateu o caso extensamente e, ainda assim, não chegou a um diagnóstico definitivo acerca da saúde mental do artista.
Uma hipótese particularmente interessante levanta a possibilidade de Transtorno do Espectro Autista — baseada não nos episódios psicóticos, mas nos traços que o acompanharam a vida inteira: a dificuldade crônica de se relacionar, o isolamento desde a infância e a maneira peculiar e intensa de ver e interagir com o mundo, capaz de ser capturada em tinta como ninguém mais conseguia fazer.
Talvez a resposta mais honesta seja que não havia uma única causa, mas uma combinação de fatores que se acumularam ao longo de décadas: uma dieta terrível, o abuso de álcool, uma possível doença sexualmente transmissível nunca tratada adequadamente, o hábito perigoso de ingerir tinta e cânfora — tudo isso somado a uma vida inteira de dificuldade em se conectar com as pessoas ao seu redor.
Talvez nunca cheguemos a um acordo sobre qual era exatamente a doença de van Gogh. O que resta, de forma inegável, é o quanto ele conseguiu criar apesar de tudo o que ele enfrentava dentro de sua inquieta, ansiosa e incompreensível mente.
A história de Vincent van Gogh é um lembrete de que o sofrimento mental, por mais grave que seja, não precisa ser a única coisa que define uma pessoa; e que é possível encontrar sentido e criar algo que perdure, mesmo em meio à dor mais profunda.









