Os relacionamentos amorosos de Vincent van Gogh

Os relacionamentos amorosos de Vincent van Gogh
Podemos conhecer muito sobre a personalidade de Vincent van Gogh através de seus relacionamentos amorosos que, aliás, foram diversos! Conheça cada um deles.

Assim como um lápis que tem cor grafite independente do papel onde rabisque, a intensidade de Vincent van Gogh não se resumia apenas às suas obras de arte. Quando se interessava por uma mulher, van Gogh era profundo tanto ao se apaixonar quanto ao desmoronar na tristeza.

Ao longo de seus apenas 37 anos de vida, van Gogh teve poucos relacionamentos amorosos bem sucedidos e sofreu diversas vezes a dor de ter um coração partido.

Os relacionamentos amororos de Vincent van Gogh foram vários e, na sua maioria, um tanto quanto turbulentos. Na envolvente leitura que se segue, vamos conhecer quais foram as dores e os amores deste célebre artista.

A infância e adolescência que moldaram a personalidade de van Gogh

Vincent Willem Van Gogh nasceu em 1853 no presbitério de uma igreja da pequena cidade de Zundert, na Holanda, há poucos quilômetros da fronteira com a Bélgica. 

Seu pai, Theodorus, era um ministro protestante em uma área predominantemente católica e sua mãe, Anna, uma mulher profundamente conservadora e temente a Deus.

Vincent era o mais velho dos seis filhos sobreviventes, nascido exatamente um ano após o primeiro filho, que morreu ao nascer.

Ele é descrito como um menino quieto, mau-humorado e difícil de lidar. Ele odiava ir para a escola e ele mesmo descreve sua juventude como “austera, fria e estéril”. Tudo o que ele fazia era criticado, e ele se sentia estranho e rejeitado.

Esse mesmo padrão de comportamento foi identificado na vida adulta de van Gogh quando ele passou a envolver-se em relacionamentos amorosos. Visto como um homem difícil e rebelde, ele não era exatamente o homem que um pai queria para casar-se com sua filha.

Esse mesmo padrão de comportamento foi identificado na vida adulta de van Gogh quando ele passou a envolver-se em relacionamentos amorosos. Visto como um homem difícil e rebelde, ele não era exatamente o homem que um pai queria para casar-se com sua filha.

Os primeiros amores e as primeiras decepções de van Gogh

A primeira vez que Vincent demonstrou real interesse e empolgação por um assunto foi na ocasião de seu primeiro emprego. Quando tinha 16 anos, seu tio Vincent, de quem herdou o nome, o ajudou a conseguir um emprego e o artista passou a trabalhar na filial de Haia da Goupil & Cie, uma empresa internacional de negociação de arte.

Aos 19 anos, Vincent van Gogh se apaixonou por sua prima de segundo grau, a bela e animada Caroline Haanebeek. No entanto, o sentimento não era correspondido e quando ela anunciou seu noivado com outro homem, Vincent escreveu uma carta a seu irmão mais novo, Theo, mencionando que, se não pudesse ter uma mulher boa, encontraria uma ruim.

Foi então que van Gogh começou a frequentar casas de má reputação. Isso o colocou em problemas com seu chefe e, com a interferência do seu pai, Vincent foi transferido para a filial da Goupil & Cie de Londres a fim de mantê-lo longe de problemas.

Em Londres, van Gogh estava solitário e desanimado. Passada a empolgação inicial, ele agora considerava seu trabalho como algo enfadonho e pouco estimulante.

Van Gogh estava com muita saudades de casa e visitava todas as galerias de Londres em busca de arte holandesa. Ele estava pobre e se sentia infeliz. E para deixar tudo ainda mais deprimente, seu irmão mais novo, Theo, estava indo muito bem em seu emprego e era descrito como um homem charmoso, diplomático e atencioso, palavras que nunca foram utilizadas para descrever Vincent.

Foi nesta época que Vincent começou a escrever cartas para a agora casada e feliz Caroline Haanebeek, seu primeiro amor não correspondido. O teor das cartas era provocante e sugestivo, encorajando a prima de segundo grau a ler poesia erótica. Tudo muito bizarro e inadequado.

Em Londres, Vincent voltou a ter o hábito de frequentar casas noturnas. Às vezes, ele entrava em bordéis apenas para beber algo e participar de uma conversa mais picante. Em outras vezes, ele ficava do lado de fora observando as idas e vindas. Mas tinha ocasiões onde ele participava mais ativamente da programação, digamos assim, e ele não se eximia de contar essas experiências nas cartas que escrevia para seu irmão Theo, que tinha apenas 17 anos.

Então, van Gogh se apaixonou novamente. 

A escolhida foi a filha proprietária da casa onde Vincent estava hospedado, Eugenie Loyer, de 19 anos.

Van Gogh sofreu uma segunda decepção porque Eugenie também o rejeitou.

Com o coração partido por conta de suas desiluções com relacionamentos amorosos, Vincent ficou ainda mais retraído, não comia, negligenciava sua aparência e ficou meses sem escrever para os pais.

A obsessão de van Gogh por Kee Vos-Stricker

Alguns anos se passaram e, depois de algumas tentativas não bem sucedidas em levar uma vida de missionário religioso e de ingressar em uma faculdade de artes, Vincent voltou para a casa dos pais, na Holanda, onde alternava seu tempo entre desenhar pessoas locais, evitar sermões do pai e desviar dos olhares de reprovação da mãe.

O ânimo de van Gogh melhorou significativamente com a chegada de sua prima recentemente viúva, Kee Vos-Stricker, sete anos mais velha que Vincent. Ela veio junto com seu filho que na época tinha oito anos de idade.

Os dias de van Gogh ficaram mais significativos com as longas caminhadas que ele fazia com a prima. Com sua impetuosidade característica, ele não demorou muito tempo para se apaixonar e pedi-la em casamento.

Se você acha que o campo dos relacionamentos amorosos da vida de van Gogh começou a melhorar, vai se decepcionar novamente com o “Não, nunca!” que ele recebeu como resposta.

Kee voltou para Amsterdã, mas van Gogh não desistiu. Ele foi visitar a prima porque interpretou a resistência dela como algo que talvez pudesse ser superado.

Em uma carta que escreveu para seu irmão Theo, ele expressa:

“Eu a amo tanto que ela vai acabar me amando também.”

Vincent também contou para Theo que havia dito a Kee que a amava como a si próprio.

No fim de 1881, Vincent passou três dias em Amsterdã tentando ver Kee. Quando ele foi visitar a casa dos pais dela, Vincent ficou desconcertado ao saber que Kee havia se ausentado propositalmente para evitar um encontro com o primo.

Quando Vincent percebeu que a rejeição da prima era realmente definitiva, o golpe foi duro. Em uma das cartas enviadas para Theo, ele mencionou que Kee estava com uma espécie de aversão a ele. Colocando-nos no lugar de alguém que recebe esse tipo de negativa, podemos imaginar quão baixa deve ter ficado a auto estima de van Gogh e quão dilacerado ele estava, uma vez que tinha desenvolvido uma paixão intensa por Kee.

Em uma carta enviada para o irmão, ele relata que aquele episódio lhe causou uma espécie de “golpe mortal” no amor.

Ele mencionou também que o vazio e a miséria interior que sentia eram tão grandes a ponto de fazê-lo compreender por que algumas pessoas pensavam em suicídio, embora ele tenha deixado claro que não aprovava esse ato de desespero.

Vincent encontrou no trabalho uma espécie de “remédio” para atenuar a dor que estava sentindo.

Seu primo, Anton Mauve, um pintor de paisagens já estabelecido, levou van Gogh como aluno em Haia, onde o artista deu seus primeiros passos na pintura a óleo. Mauve até lhe emprestou dinheiro para montar seu próprio estúdio, mas eles logo se desentenderam. Sabe qual o motivo deste desentendimento? A nova mulher que apareceu na van Gogh.

Sien, o relacionamento amoroso mais longo de van Gogh

Clasina Maria Sien Hoornik tinha 32 anos quando conheceu van Gogh, em Haia, no início de 1882. 

Sien era uma prostituta pobre, com problemas com álcool, grávida de outro homem e com uma filha pequena. Van Gogh a conheceu em uma situação de extrema vulnerabilidade e a contratou como modelo. As cartas indicam que ele inicialmente a considerava apenas uma mulher grávida que ele poderia desenhar.

Van Gogh tinha acabado de passar por aquela experiência humilhante com Kee. Ele estava emocionalmente abalado, havia rompido com o pai por conta do constrangimento familiar que havia causado, e estava tentando construir uma vida como artista em Haia.

Neste contexto, Sien aparece como alguém vulnerável, que precisa de ajuda.

Van Gogh começa a se envolver sentimentalmente com ela. Em maio de 1882, ele finalmente conta a Theo que existe algo entre os dois.

Quando Theo questiona o relacionamento amoroso e sugere que Sien poderia estar se aproveitando dele, Vincent reage fortemente. Ele escreve que está “verdadeiramente ligado a ela e que ela está ligada a ele”. Disse que ela havia se tornado sua leal ajudante e uma companheira cada vez mais indispensável para ele.

Ele revela que seus sentimentos por Sien eram menos apaixonados do que ele havia sentido por Kee, no entanto, o que ele tinha com Sien era amor verdadeiro.

Diz também que eles eram “dois infelizes que fazem companhia um ao outro e carregam juntos o peso”.

Sien dá à luz seu filho, Willem, em 2 de julho de 1882. Van Gogh estava profundamente envolvido com ela durante a gravidez e acompanhou a situação de perto. Poucos dias depois, Vincent escreve a Theo descrevendo a emoção de estar ao lado da mulher que amava enquanto o bebê estava no berço.

Ele também se afeiçoou profundamente ao menino.

Anos depois, ele seria lembrado como alguém que tratava Willem com enorme carinho. Há, inclusive, registros de Vincent descrevendo o bebê sentado em seu estúdio, olhando para os desenhos.

Van Gogh chegou a pensar em casar-se com Sien.

Theo continuava contra o relacionamento por conta se suas preocupações sobre Sien e as condições econômicas da união. Vincent acreditava que, com o tempo, à medida que se conhecessem melhor, Theo passaria a gostar dela.

No entanto, nem houve tempo para isso.

Como “nem só de amor vive o homem”, a realidade começou a cobrar seu preço. 

O casal continuava na pobreza e o relacionamento de van Gogh com sua família estava indo de mal a pior. Além disso, Vincent e Sien também tinham seus próprios conflitos. 

Com o tempo, ele passou a acreditar que Sien estava sendo influenciada por familiares e chegou a temer que ela voltasse à prostituição. A relação foi se deteriorando e, sem uma única razão suficientemente documentada para explicar o rompimento, depois de aproximadamente um ano vivendo juntos, eles se separaram.

O relacionamento não terminou com ambos se odiando porque quando Vincent partiu de Haia, Sien e seus filhos foram à estação para se despedir dele. Ele escreveu a Theo que a despedida “não foi fácil”.

Percebemos, até então, que van Gogh se envolvia em relacionamentos amorosos repetidamente, mas nunca conseguia transformá-los em uma relação estável, seja por rejeição ou circunstâncias do casal.

Van Gogh encontra um novo amor

O término com Sien resultou em um tremendo pesar para van Gogh. Dilacerado e extremamente deprimido, ele via apenas morte e decadência, o que pode ser percebido nas pinturas sombrias que ele realizou neste período.

Depois de um auto imposto exílio de três meses em Drenthe, uma parte isolada do norte da Holanda, van Gogh voltou a morar com seus pais, que agora estavam em uma cidade chamada Nuenen e cenário onde Vincent van Gogh deu vida à sua primeira obra de arte, “Os Comedores de Batata”. 🥹

>> Saiba tudo sobre “Os Comedores de Batata” neste post aqui.

Cerca de dois meses depois do fim do relacionamento amoroso de van Gogh com Sien, Vincent conheceu outra mulher.

Margot Begemann, cerca de doze anos mais velha que Vincent, era vizinha da família van Gogh em Nuenen.

No início de 1884, a mãe de Vincent sofreu uma fratura na perna e ficou de cama. Margot passou a ajudá-la e chegou a assumir temporariamente a aula de costura que ela dava em casa.

Foi nesse período que os dois começaram a passar bastante tempo juntos. Eles caminhavam juntos por Nuenen, conversavam e foram se aproximando.

E, ao contrário da maioria dos relacionamentos anteriores de Van Gogh, desta vez havia reciprocidade.

O próprio van Gogh considerou seriamente a possibilidade de casamento, ideia que Margot não descartava.

No entanto, esse romance encontrou uma barreira praticamente intransponível — a oposição da família de ambos. A diferença de idade, as circunstâncias financeiras de Vincent, sua reputação e, sobretudo, seu modo de vida pouco convencional pesavam contra ele.

Desesperada depois de uma discussão familiar sobre seu relacionamento com van Gogh, Margot ingeriu veneno numa tentativa de suicídio. Vincent ficou profundamente impactado e disse numa carta enviada para seu irmão Theo que, para narrar tudo o que presenciou e estava sentindo, precisaria escrever um livro.

Nessa mesma carta, Vincent compara Margot à “primeira Madame Bovary”, uma referência literária que mostra como ele enxergava o desespero dela: uma mulher sufocada por convenções sociais e familiares.

Preocupados com a filha, a família de Margot a enviou para Utrecht, há cerca de noventa quilômetros de Nuenen. Lá, ela ficou sob os cuidados de um médico que a conhecia desde a infância e chegou a descrevê-la como alguém de “constituição muito frágil” e “altamente irritável”. O médico da família também acreditava que ela estava fraca demais para se casar.

Então, mais um dos relacionamentos amorosos de van Gogh foi rompido.

Assim como ocorreu com Sien, com Margot também houve um término amigável. Em certa carta que o pai de Vincent escreveu para Theo, ele relatou que o filho e Margot permaneciam amigos e se correspondiam regularmente através de cartas. Vincent inclusive a visitou algumas vezes em Utrecht.

Em uma das cartas onde Vincent fala com Theo sobre Margot, podemos perceber sua compaixão. Ele relatou sentir uma pena imensa daquela mulher e mencionou suas preocupações com sua saúde, descrevendo um possível problema de fígado e vesícula que podiam ser agravados por conta das fortes emoções que ela estava enfrentando.

O último relacionamento amoroso de van Gogh

Em 1886, van Gogh passou a morar em Paris junto com seu irmão, Theo.

Se você acha que van Gogh havia desistido de se envolver em relacionamentos amorosos, saiba que, no ano seguinte, quando Vincent tinha 34 anos, ele conheceu Agostina Segatori, uma italiana que era ex-modelo de pintores e administradora do café-restaurante Le Tambourin, amplamente frequentado por artistas.

Vincent e Agostina namoraram por cerca de quatro meses e parece que o artista gostou bastante dela, uma vez que pintou um retrato da amada intitulado “Portrait d’Agostina Segatori”, também conhecido como “No Café Le Tambourin”.

No período que envolveu o cortejo de ambos, Vincent produziu diversas pinturas de casais namorando, o que pode ser um indicativo de como estava seu estado emocional naquela época.

Mas quando Agostina adoeceu, Vincent suspeitou que ela tivesse sofrido um aborto ou aborto espontâneo, e a relação de ambos, que já não estava muito boa, acabou de forma conturbada.

Segatori parece ter sido o último dos relacionamentos amorosos de Vincent van Gogh.

Em julho de 1887, pouco depois do término com Agostina, ele escreveu a Theo que estava perdendo o desejo de casar-se e ter filhos. 

Depois de tantos relacionamentos amorosos fracassados, já em Arles (1888), o artista passou a buscar conforto em prostitutas e no que chamava de seu único “amor correspondido” — a arte, a natureza e seu irmão, Theo.

O que podemos concluir sobre van Gogh a partir de seus relacionamentos amorosos?

Os relacionamentos amorosos de Vincent nos contam sobre sua impulsividade, intensidade e forte desejo de pertencimento.

Vincent van Gogh passou boa parte da vida tentando encontrar em seus relacionamentos amorosos a estabilidade, a aceitação e o pertencimento que ele não conseguiu encontrar em outras áreas da vida; uma vez que ele tinha dificuldades profissionais e financeiras, conflitos familiares e sentia-se rejeitado por ser “socialmente inadequado”.

Quando ele era rejeitado em seus relacionamentos amorosos era devastador porque o que ele estava perdendo não era apenas uma possível namorada, mas uma possibilidade de ter uma vida normal.

Outro padrão é a atração por mulheres em situação de vulnerabilidade ou marginalização, como se ele encontrasse nos relacionamentos amorosos um espelho de sua própria condição.

Em sua breve vida, Vincent não encontrou a estabilidade que procurava em relacionamentos amorosos. Notável, no entanto, ele não ter desistido facilmente e ter se permitido envolver emocionamente com mulheres que o impactaram de certa forma. E o mesmo percebemos em sua arte: embora criticado e não incentivado, ele persistiu na certeza de seu propósito ao pintar.

Sorte a dele e a nossa também de Vincent van Gogh ter encontrado um amor que não falhava, não acabava nem decepcionava: a arte!

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