O que o bullying me roubou

menina encolhida bullying
Uma camada do bullying pouco comentada e até pouco constatada.

Existe uma peculiaridade do bullying sobre a qual poucos comentam, mas quem é vítima deste tipo de opressão conhece muito bem apesar de talvez ainda não ter racionalizado acerca deste ponto.

Eu tenho excelentes lembranças do Ensino Fundamental.

Estudei no mesmo colégio da pré-escola até a oitava série. Era uma escola de bairro e, por estar lá desde bem novinha, compartilhei da minha infância e do início da adolescência com praticamente a mesma turminha de pessoas.

Naquela fase, o bullying não era tão pesado. Pelo menos para mim.

Nem era bullying, eram provocações de crianças. O máximo que eu tive que enfrentar eram piadinhas por eu ser muito quieta e por ter um bigodinho que minha mãe me proibia de depilar com cera quente porque dizia que eu era nova demais para isso.

Naquela época eu não percebia, mas hoje vejo como foram bons tempos. Sobretudo quando eu volto lá por ocasião de alguma apresentação da minha sobrinha e me deparo com um caminhão lotado de sentimentos bons.

Finalizando o Ensino Fundamental, troquei de escola e fui para uma que tinha apenas Ensino Médio. Pensando no momento que essas palavras ocupam a folha branca, acho que o fato de uma escola ter no pátio crianças correndo e brincando torna o ambiente mais lúdico e menos ameaçador.

No Ensino Médio não tinha tal barulho de crianças brincando, apenas o peso do ameaçador olhar dos adolescentes.

Não que eu não tivesse uma leve noção disso, mas no Ensino Médio eu comecei a perceber o quão estranha eu era porque muitos de meus colegas faziam questão de deixar isso claro.

Lá o bullying era de outro nível. Aquele nível de te fazer sentir oprimida, vulnerável e desesperada, querendo loucamente desaparecer e correr para o colo da mãe, ou do pai, ou da irmã… enfim, qualquer pessoa que te ame de verdade.

O bullying que eu sofria era por conta de minha aparência. Eu sempre tive a pele excessivamente branca (a julgar pelos critérios dos meus colegas) e olheiras bem profundas (a julgar por qualquer critério). E essas danadas não tinham a ver com falta de sono, são de genética mesmo. Somado a isso, era uma época que eu não conhecia o incrível poder do corretivo, maquiagem que hoje eu domino com maestria.

Meus colegas diziam que eu estava morta e, pra piorar, o fato de ser friorenta e ter as mãos frias fazia a comparação ganhar mais força. E se as coisas não tinham como piorar, eu não fui nascer bem no dia trinta e um de outubro, o dia das bruxas? Eu lembro que sempre menti a data do meu aniversário para não dar mais essa carta para os animados autores de bullying.

Acho que até o Patinho Feio sentia pena de mim.

Curioso como quem pratica bullying é geralmente o engraçadinho, o popular e cheio de amigos, não é? Eu não sei como eles podiam transparecer tanta alegria e animação ao mesmo tempo que zombavam das pessoas. Se eu causasse tamanha dor alheia, me sentiria muito triste e culpada.

Me lembro por nome de algumas meninas que apontavam pra mim, cochichavam e riam. E elas não faziam isso nas minhas costas. Elas escancaradamente faziam quando eu percebia o encontro de nossos olhares.

E pra piorar, acredita que pelo menos duas vezes por ano eu era contemplada com um herpes labial?

Eu me sentia pequeníssima, tudo o que eu queria era voltar para casa e respirar livremente, sem aquele peso insuportável no peito.

Uma camada do bullying pouco comentada

Só depois de entrar e avançar na vida adulta foi que eu consegui perceber e estabelecer conexões de alguns sentimentos e comportamentos com o bullying que eu sofri no Ensino Médio.

Eu me recordo que eu resistia bravamente a usar qualquer peça de roupa que fosse diferente do uniforme. Estrear um tênis novo para mim era um momento de extrema ansiedade. Corte de cabelo diferente nem passava pela minha mente, eu deixava pra fazer isso nas férias. Modificar a armação do óculos, colocar borrachinhas coloridas no aparelho dental, trocar de mochila. Eu tinha muito receio de fazer qualquer uma dessas coisas.

Naquela época eu não compreendia, mas o que eu mais queria era passar totalmente despercebida. Hoje percebo que tinha medo de chamar a atenção para algum detalhe que pudesse resultar em outro motivo de bullying.

Escrever este texto me fez questionar se é por isso que sempre penso que as pessoas estão falando mal de mim quando a atenção está sendo direcionada para a minha pessoa ou se estão reparando em algum defeito e/ou assimetria em meu rosto.

O bullying não me permitia manifestar a minha própria personalidade, aquela que eu conseguia colocar pra fora em casa, com amigos de infância e com as quatro unidades de amigas que eu tinha no colégio.

Eu me mantinha quieta, andava olhando para o chão, não puxava assunto com ninguém fora do meu círculo de amigas, não respondia perguntas dos professores cuja resposta eu sabia, não fazia nenhuma piadinha ou comentário engraçado.

Parece que tudo que saísse da minha boca seria sem graça, sem noção e motivo para uma zombaria que até posso ouvir com um mínimo de esforço.

Quem sofre bullying e reage quieta, como eu fazia, perde seu direito de ter uma identidade, de vestir as roupas que gosta, de ousar um corte de cabelo diferente, de parecer divertida e interessante.

O bullying rouba sem qualquer chance de restituição aquele brilho e aquela alegria da juventude, sabe?

Justamente na adolescência, o período de descobrir a mim mesma, eu optei por me esconder.

E eis aqui uma dor que me incomoda porque a gente só tem uma infância e uma adolescência na vida, não terei uma segunda chance e uma nova oportunidade de viver essa fase.

Creio que a forma que eu reagi ao bullying não foi muito admirável. Eu poderia ter virado o jogo e ter me imposto cheia de determinação e atitude. Acho tão linda a reviravolta de quem consegue fazer isso!

Mas eu sempre fui tímida e retraída. Se eu voltasse no tempo, mesmo com todo o conhecimento e a informação que tenho agora, a verdade é que acredito que eu não teria força moral para reagir diferente.

Eu percebo que o bullying deixa cicatrizes bem fortes naqueles que são oprimidos por este mal.

Em caráter pessoal, já sofri as intensas dores de ter o coração partido por desilusões amorosas, já passei por períodos de extrema ansiedade e fortes crises de depressão, já tive frustrações na minha carreira, conflitos familiares… mas apesar de terem sido momentos de pujante dor, creio que foram completamente superados e mais, trouxeram aprendizados importantíssimos para minha maturidade.

Mas quando penso no bullying, não consigo listar qualquer benefício dele na minha vida.

E mais.

Sinto que foi uma das poucas dores que não superei.

E não porque ainda sou atormentada pelo que eu ouvia ou sentia.

Não.

É que parece que eu ainda não consigo perdoar essas pessoas e tampouco desejar que elas estejam vivendo suas vidas com sucesso e felicidade. Não parece muito virtuoso, mas é como me sinto.

No entanto, no final das contas…

… eu prefiro mil, três mil, dez mil vezes ser a pessoa que recebe o bullying do que a pessoa que o pratica.

Eu falei que o bullying não trouxe nenhum benefício pra minha vida, mas minto. Trouxe sim. Acho que me tornei uma pessoa mais empática e acolhedora. Eu faço questão de conversar, interagir e demonstrar afeto e interesse por aqueles que parecem frágeis e rejeitados.

Acho que é a forma que eu encontrei de afagar aquela menina que o bullying deixou em frangalhos. A minha maneira de dizer pra ela: “Eu estou vendo você. E você não precisa se esconder.”

E você? Já viveu algo parecido?

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