Vincent van Gogh é uma dos mais célebres artistas da história. Em 2022, uma de suas obras de arte foi vendida por simplesmente US$ 117,18 milhões!
Mas você sabia que durante toda a sua vida van Gogh não teve fama, destaque nem reconhecimento? De posso de um idiossincrático jeito de ser, o artista holandês era visto por muitos como alguém louco e desagradável; e sua arte, como um material sem valor.
Hoje você vai conhecer a trajetória, a arte e a sensibilidade de alguém que foi um dos mais incompreendidos gênios documentados na história da humanidade. Com vocês, Vincent van Gogh.
A infância de van Gogh

Vincent van Gogh nasceu na vila de Zundert, na Holanda, em 30 de março de 1853, exatamente um ano depois do primogênito da família, também chamado Vincent, que infelizmente nasceu morto.
Segundo relatos, o pai de Vincent, Theodorus, era um homem bonito e amável. Ministro protestante em uma área predominantemente católica, vinha de uma grande família próspera, muitos dos quais eram negociantes de arte.
Sua mãe, Anna, também vinha de uma origem de classe média confortável. Ela teve aulas de pintura em sua juventude e era uma aquarelista entusiasta. Profundamente conservadora e temente a Deus, Anna tinha pavor de qualquer desvio do comportamento aceito, já que vários membros de sua família, incluindo seu pai, haviam sido afligidos mentalmente de formas diferentes.
Depois de Vincent, Theodorus e Anna, tiveram mais cinco outros filhos: Anna, Theo, Wil, Lies e Cor. A família van Gogh fazia caminhadas frequentes na área ao redor de Zundert, ajudando a incutir no futuro artista um grande apreço pela natureza.
Aos onze anos, Vincent foi transferido da escola da aldeia em Zundert para um internato em Zevenbergen.
Van Gogh sentia-se profundamente infeliz lá, mas conseguiu concluir o ensino fundamental. Ele desenhava de vez em quando, mas ainda havia poucos sinais de qualquer talento artístico especial.
Aos treze anos, Vincent frequentou a escola secundária em Tilburg, onde obteve boas notas, especialmente em línguas.
Mesmo assim, ele abandonou os estudos no meio do segundo ano acadêmico por razões desconhecidas e nunca mais voltou para a escola.
A adolescência e vida adulta de van Gogh

Centi, o tio de van Gogh, encontrou um emprego para o jovem sobrinho de dezesseis anos como estagiário na Goupil & Cie, uma das mais importantes e influentes galerias e comércio de arte do século XIX.
Em 1873, Theo, o caçula da família van Gogh, também começou a trabalhar para a Goupil & Cie, porém na filial de Bruxelas, capital da Bélgica.
Neste mesmo ano, Vincent foi transferido para a filial londrina da empresa. Desde então, iniciou-se um período de correspondências por cartas entre os irmãos van Gogh que se estendeu pelo resto de suas vidas.
>> Saiba mais sobre o relacionamento dos irmãos Vincent e Theo van Gogh aqui.
Durante o período que permaneceu em Londres, Vincent visitou instituições famosas como o Museu Britânico e a Galeria Nacional. Ele admirava muito as obras de “pintores camponeses” como François Millet e Jules Breton. Vincent também era um assíduo leitor – desde guias de museus até literatura poética.
Em 1875, Vincent van Gogh foi transferido para Paris.
Na capital francesa, Vincent se tornou cada vez mais religioso. As cartas que ele escreveu para Theo nesta época estão cheias de citações bíblicas e relatos dos cultos e sermões que ele assistia.
Apesar do seu interesse pela arte, Vincent não estava contente com seu trabalho no escritório. O sentimento da Goupil & Cie era recíproco e, em 1876, van Gogh foi demitido.
Após sua demissão, Vincent passou pela Inglaterra, onde trabalhou pregando em escolas e aldeias; e por Amsterdã, onde estava se preparando para fazer o vestibular para Teologia.
Mas o jovem van Gogh não tinha disciplina para estudar e acabou por novamente deixar de lado os estudos.
>> Saiba mais sobre a personalidade e sobre o temperamento de van Gogh nesta leitura aqui.
No seu coração, no entanto, Vincent ainda tinha o sincero desejo de servir a Deus.
Então, em 1879, com cerca de 26 anos, van Gogh partiu para uma missão na Bélgica, onde trabalhou como pregador leigo na região mineira de Borinage. Ele ensinava, visitava os enfermos e proferia leituras bíblicas.
Vincent viveu entre os mineiros e suas famílias no Borinage, partilhando a sua pobreza. Ele dormia no chão e doava seus pertences. Sua dedicação era tanta que foi apelidado de “O Cristo da Mina de Carvão”.
No entanto, ele não conseguiu estabelecer uma comunidade unida de fiéis e o seu contrato não foi renovado.
O início da carreira artística de van Gogh
Vincent frequentemente incluía pequenos esboços do que via e vivia nas cartas que enviava ao seu irmão Theo.
Foi então que Theo aconselhou o irmão mais velho a dedicar todo seu foco à arte. Vincent percebeu que poderia servir a Deus como artista.
Então, em outubro de 1880, van Gogh mudou-se para Bruxelas, onde começou a aprimorar sua técnica de desenho e a contatar outros artistas. Como não tinha mais um emprego remunerado, seu irmão Theo lhe enviava dinheiro.
Na primavera de 1881, Vincent voltou a morar com seus pais, que agora habitavam em Etten, na Holanda.
Ele praticava desenho e frequentemente trabalhava ao ar livre. Enquanto isso, seu irmão, Theo, foi nomeado gerente da Goupil & Cie em Paris. Ele apoiava Vincent financeiramente para que ele pudesse se concentrar inteiramente em sua arte.
Diferente do irmão, quem não estava nada contente com a escolha de Vincent eram seus pais. Eles tinham o conceito de que ser um artista era sinônimo de fracasso social.
Pouco contribuiu para a paz na residência van Gogh o fato de Vincent ter se apaixonado por sua prima viúva, Kee Vos. Apesar de ela não ter interesse no rapaz, Vincent persistiu nas investidas, o que causou uma briga com seu pai que, por sua vez, resultou em mais um episódio em que Vincent saiu de casa.
“Papai não consegue ter empatia ou simpatizar comigo, e não consigo me adaptar à rotina do papai e da mamãe, é muito restritivo para mim — me sufocaria.” — Vincent para Theo, Etten, por volta de 23 de dezembro de 1881
Foi em Haia, no sul da Holanda, onde van Gogh encontrou um novo lar.
Lá, ele teve aulas de pinturas com o célebre artista Anton Mauve. Van Gogh sentiu que sua técnica de desenho ainda não era boa o suficiente, então ele passou a praticar fanaticamente.
Que emocionante foi quando Vincent recebeu a sua primeira encomenda: um tio pediu doze desenhos de vistas da cidade de Haia!
A série lhe deu a oportunidade de desenvolver suas habilidades de perspectiva. Mauve ensinou ao artista os fundamentos da pintura em aquarela e a óleo, e van Gogh visitava seu estúdio quase todos os dias.
No início de 1882, quando tinha 29 anos, Vincent van Gogh conheceu Sien Hoornik, que se tornou sua modelo e amante.
>> Conheça a tumultuada vida amorosa de Vincent van Gogh nesta leitura.
Os amigos e familiares de Vincent – incluindo Mauve – ficaram chocados, pois Sien era uma ex-prostituta. Além disso, ela estava grávida e já tinha uma filha de cinco anos.
Vincent sentia pena da situação de Sien e estava determinado a cuidar dela. Eles alugaram um estúdio onde moravam ele, Sien, sua filha e o novo bebê.
Theo não aprovou a escolha do irmão, no entanto, continuou a apoiá-lo financeiramente.
O relacionamento de Vincent e Sien durou um ano e meio, quando van Gogh decidiu romper com ela.
“Eu sabia desde o início que a personagem dela era uma personagem arruinada, mas tinha esperanças de que ela se recuperasse e agora, justamente quando não a vejo mais e penso nas coisas que vi nela, cada vez mais percebo que ela já estava longe demais para se recompor.” — Vincent para Theo, Hoogeveen, por volta de 14 de setembro de 1883
Após a separação, Vincent viajou para o interior de Drenthe, também na Holanda, para desenhar e pintar as suas vistas das vegetações locais.
Porém, depois de menos de três meses, a chuva, o frio e o isolamento levaram van Gogh de Drenthe para a nova casa dos seus pais, na aldeia de Nuenen.
Mal imaginava van Gogh que ele estava entrando no cenário que daria origem à uma de suas mais famosas artes! 🥹
Inspirado pela realidade que o circuncidava, Vincent van Gogh passou a esboçar e pintar agricultores, tecelões e trabalhadores rurais.
No início de 1884, van Gogh propôs a seu irmão, Theo, a dar às obras de arte que produzia em troca de uma mesada.
“Agora tenho uma proposta a fazer para o futuro. Deixe-me enviar-lhe meu trabalho e você receberá o que quiser dele, mas insisto que posso considerar o dinheiro que receberia de você depois de março como o dinheiro que ganhei.” — Vincent para Theo, Nuenen, por volta de 15 de janeiro de 1884
A ideia era que Theo vendesse as pinturas no mercado de arte de Paris, mas o plano não deu em nada: o gosto francês preferia a cor, e o trabalho de Vincent tinha um tom nitidamente escuro.
Isso mudaria, mas não por enquanto.
Os pais de Vincent achavam difícil conviver com o filho mais velho. Ele era teimoso e não se vestia bem.
Pouco depois da morte de seu pai, no final de março de 1885, van Gogh deixou a casa da família e mudou-se para seu estúdio, onde começou a trabalhar em uma de suas mais conhecidas obra de arte, “Os Comedores de Batata” (De Aardappeleters).

>> Saiba mais sobre “Os Comedores de Batata” aqui.
Van Gogh viu os “Comedores de Batata” como uma prova de que ele estava a caminho de se tornar um bom pintor.
Sua intenção era retratar a dura realidade da vida no campo, por isso deu aos camponeses rostos rudes e mãos ossudas. Para van Gogh, a mensagem da pintura era mais importante do que a anatomia correta ou a perfeição técnica.
Ele pintou os cinco personagens em cores terrosas – “algo como a cor de uma batata bem empoeirada, com casca, é claro”, de acordo com o artista.
Ele ficou muito satisfeito com o resultado. No entanto, sua pintura atraiu críticas consideráveis uma vez que as cores utilizadas eram muito escuras e as figuras, cheias de erros.
Mais tarde, naquele mesmo ano, van Gogh decidiu matricular-se na academia de arte de Antuérpia, na Bélgica, e deixou a Holanda, país para onde nunca mais voltaria.
Antuérpia tinha muito a oferecer a Vincent: bons materiais, clubes de desenho com maquetes, museus e galerias repletas de arte. As aulas de desenho que frequentou na academia eram, porém, tradicionais demais para ele.
“Na verdade, acho todos os desenhos que vejo lá irremediavelmente ruins – e fundamentalmente errados. E eu sei que os meus são totalmente diferentes – o tempo só terá que dizer quem está certo. Droga, nenhum deles tem qualquer noção do que é uma estátua clássica.” – Vincent para Theo, Antuérpia, 19 ou 20 de janeiro de 1886
Pouco tempo depois, Vincent combinou com Theo uma visita à Paris para ter aulas no ateliê de Fernand Cormon – artista muito procurado pelos estudantes estrangeiros.
Theo começou a procurar um apartamento grande o suficiente para ele e seu irmão, mas antes que pudesse encontrar um, Vincent apareceu em Paris sem avisar no final de fevereiro de 1886.
Da escuridão para a luz
Theo era gerente dos negociantes de arte Goupil & Cie na Boulevard Montmartre, em Paris. Ele apresentou a seu irmão mais velho o colorido trabalho de artistas modernos proeminentes, como Claude Monet. Vincent van Gogh também conheceu uma nova geração de artistas no estúdio de Fernand Cormon, incluindo Henri de Toulouse-Lautrec e Emile Bernard.
Todas essas novas impressões e novas pessoas inspiraram e influenciaram seu próprio trabalho.
Os tons escuros de “Os Comedores de Batatas” rapidamente deram lugar a cores mais vivas, como em “A Colina de Montmartre com Pedreira” (De heuvel van Montmartre met steengroeve), ilustrada abaixo.

(De heuvel van Montmartre met steengroeve), de Van Gogh
Sob a influência da arte moderna, o trabalho de Vincent van Gogh se tornou cada vez mais brilhante em Paris.
Além de usar cores mais vivas, o artista passou a desenvolver um estilo próprio de pintura, com pinceladas curtas.
Os temas de suas artes também mudaram.
Trabalhadores rurais deram lugar aos cafés e avenidas, campos ao longo do rio Sena e naturezas-mortas florais.
Foi também em Paris que ele descobriu uma fonte de inspiração que muito lhe impactou, as xilogravuras japonesas.
Xilogravura é uma técnica de impressão de arte em blocos de madeira. Geralmente ilustravam vibrantes e detalhadas paisagens, cenas da vida cotidiana e belas mulheres.
Um exemplo de xilogragura que inspirou van Gogh foi “A Grande Onda de Kanagawa“, de Katsushika Hokusai. Vincent admirava a forma como Hokusai capturava a natureza com simplicidade e força visual.
A influência dos contornos ousados, recortes e contrastes de cores desse tipo de arte japonesa transpareceu imediatamente no trabalho de Vincent van Gogh.
No entanto, depois de dois anos, Vincent começou a se cansar da vida frenética da cidade de Paris.
“Parece-me quase impossível poder trabalhar em Paris, a menos que se tenha um refúgio onde se possa recuperar a paz de espírito e a autocompostura. Sem isso, você ficaria totalmente entorpecido”. – Vincent para Theo, 21 de fevereiro de 1888
Van Gogh ansiava pela paz do campo, pelo sol, pela luz e pela cor das paisagens japonesas, que esperava encontrar na Provença, no sul de França.
Após uma viagem de trem que durou um dia e uma noite, ele chegou em 20 de fevereiro de 1888 a Arles, no sul da França, uma pequena cidade às margens do rio Ródano.
Através de sua arte, podemos até mesmo saber como era o quarto onde o artista ficava, pois foi neste local, Arles, onde nasceu a emblemática pintura “O Quarto de Arles”.

A memorável obra de arte mostra seus móveis simples, com cores contrastantes – embora pesquisas científicas mostrem que as cores que vemos hoje são resultado da descoloração ao longo do tempo. A falta de perspectiva foi concebida pelo artista como uma forma de achatar os volumes para se assemelharem a uma gravura japonesa. Sobre o efeito esperado com esta arte, van Gogh escreveu ao seu irmão Theo dizendo que “olhar para a pintura deve descansar a mente, ou melhor, a imaginação”.
Vincent ficou encantado com a luz e as cores brilhantes da nova cidade onde passou a habitar e começou a trabalhar com entusiasmo, pintando pomares e trabalhadores. Fez também uma viagem ao litoral, onde pintou os barcos.
>> Veja aqui oito obras de van Gogh que você pouco provavelmente deve conhecer
Seu estilo tornou-se mais solto e expressivo, como podemos perceber nas duas encantadoras artes abaixo.

Fonte: van Gogh Museum
Vincent contou para seu irmão, através de cartas, sobre o seu plano de criar o “Estúdio do Sul”, em Arles, a fim de juntar um grupo de artistas cujo trabalho Theo pudesse vender em Paris.
“Você sabe que sempre achei ridículo que os pintores vivessem sozinhos, etc. Você sempre perde quando está isolado.” Vincent para Theo, Arles, 28 ou 29 de maio de 1888
Com este “ateliê de artistas” em mente, van Gogh alugou quatro quartos na Casa Amarela, situada na Place Lamartine, em Arles. Tratava-se de uma casa de dois andares com uma fachada amarela vibrante, o que lhe conferiu o nome.
Após muita bajulação, Paul Gauguin (1848-1903), um artista francês, chegou à Casa Amarela no final de outubro de 1888. Theo teve que arcar com suas despesas de viagem, mas ficou feliz em poder ajudar seu irmão.
“Então Gauguin está vindo; isso fará uma grande mudança em sua vida. Espero que os seus esforços consigam fazer da sua casa um lugar onde os artistas se sintam em casa.” – Theo para Vincent, Paris, 19 de outubro de 1888
Foi neste período de sua vida, durante sua estada em Arles, que van Gogh criou uma série de cinco pinturas de girassóis em um vaso, usando apenas tons de amarelo e um toque de verde. O intuito das artes era decorar a casa para a chegada de Gauguin.

Fonte: Vincent van Gogh Foundation
Ele escreveu que, para ele, os girassóis representavam gratidão. Paul Gaugin gostou muito desses quadros e pediu a van Gogh uma das pinturas, que lhe foi dada. Hoje, esta cópia está no Museu van Gogh, em Amsterdã.
Van Gogh corta sua própria orelha

Van Gogh e Gauguin trabalharam arduamente juntos e tal parceria resultou em algumas pinturas excepcionais.
Ao mesmo tempo, no entanto, os dois tinham opiniões muito diferentes sobre a arte, o que levou a discussões frequentes e acaloradas:
“Gauguin e eu conversamos muito sobre Delacroix, Rembrandt, etc. A discussão é excessivamente elétrica. Às vezes saímos disso com a mente cansada, como uma bateria elétrica depois de descarregada.” – Vincent para Theo, Arles, 17 ou 18 de dezembro de 1888
Gauguin trabalhava principalmente a partir da memória e da imaginação, enquanto Vincent preferia pintar o que via à sua frente. Seus diferentes estilos fizeram com que a tensão entre eles aumentasse continuamente.
Quando Gauguin ameaçou partir, a pressão chegou ao ápice. Van Gogh ficou tão perturbado que ameaçou o amigo com uma navalha. Mais tarde naquela noite, ele cortou a própria orelha na Casa Amarela, a embrulhou em um jornal e a apresentou a uma prostituta em um bairro de prostituição próximo.
Na manhã seguinte ao corte de sua orelha, Vincent van Gogh foi internado em um hospital em Arles, a cidade onde ele estava morando, no sul da França.
Theo, seu irmão mais novo, que sempre esteve ao lado do irmão – apoiando sua arte e o ajudando financeiramente – tão logo ouviu a notícia, dirigiu-se ao hospital.
“Encontrei Vincent no hospital em Arles. As pessoas ao seu redor perceberam pela sua agitação que, nos últimos dias, ele vinha apresentando sintomas daquela doença mais terrível, a loucura, e um ataque de fièvre chaude (febre quente), quando se feriu com uma faca. Foi a razão pela qual ele foi levado ao hospital. Ele permanecerá insano? Os médicos acham isso possível, mas ainda não se atrevem a dizer com certeza.” – Theo van Gogh para Jo Bonger, 28 de dezembro de 1888
Theo retornou a Paris imediatamente após visitar o hospital, e Gauguin – o colega de arte de van Gogh, que compartilhava o ateliê de arte na Casa Amarela – fez o mesmo.
O sonho de Vincent de ter estúdio compartilhado acabara de desmoronar.
Van Gogh pouco recordava o incidente com a orelha e, quando recebeu alta do hospital no início de janeiro de 1889, retomou a pintura.
Nos meses seguintes, no entanto, sua saúde mental oscilou drasticamente. Temendo um novo surto psicótico, van Gogh se internou voluntariamente no hospital psiquiátrico Saint-Paul-de-Mausole em Saint-Rémy, na França, em maio daquele mesmo ano.
Assim que Vincent chegou à clínica em Saint-Rémy, ele passou por um período de descanso.
Nada disso!
Van Gogh imediatamente começou a trabalhar novamente.
Foi, inclusive, ao contemplar o céu estrelado da janela do seu quarto que nasceu uma de suas obras mais famosas, A Noite Estrelada, que atualmente se encontra no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York, nos Estados Unidos.

Os azuis rodopiantes do manto noturno iluminado pela lua, capturando a sensação de movimento e energia no céu, tornaram-se sinônimo do estilo do artista e da qualidade emocional do uso da cor. A pintura é amplamente reconhecida pela sua profundidade emocional e beleza, e continua a inspirar e cativar os espectadores em todo o mundo.
Nos seus dias bons, van Gogh frequentemente pintava no jardim murado da instituição e mais tarde, foi autorizado a trabalhar também fora do hospital.
Vincent ganhou um quarto extra dentro da clínica para usar como ateliê, onde produziu uma série de obras, incluindo cópias de gravuras e pinturas de Rembrandt e Jean-François Millet, dois artistas influentes na história da arte europeia.
Declínio da saúde mental de van Gogh
Infelizmente, a saúde mental de Vincent van Gogh continuou a flutuar.
Durante um período de extrema confusão, ele comeu um pouco de sua tinta a óleo, e então, ficou restrito a desenhar por um tempo.
>> Saiba mais sobre a saúde mental de Vincent van Gogh aqui.
No entanto, Vincent foi excepcionalmente produtivo em Saint-Rémy, onde completou cerca de 150 pinturas no espaço de um ano.
“Quanto a mim, minha saúde está boa, e quanto à cabeça será, esperemos, uma questão de tempo e paciência.” – Vincent para Theo, Saint-Rémy-de-Provence, entre 31 de maio e 6 de junho de 1889
Enquanto isso, em Amsterdã, Theo casou-se com Johanna (Jo) Bonger, em abril de 1889.
Em janeiro de 1890, Vincent recebeu uma correspondência em Saint-Rémy com a emocionante notícia de que Theo e Jo deram à luz ao primeiro filho e que ele recebera o nome do tio: Vincent Willem van Gogh. Vincent enviou-lhes uma pintura especial que produziu lá mesmo, no hospital: Amandelbloesem. (Amendoeira em Flor em português e Almond Blossom, em inglês)

“Eu preferiria que ele tivesse chamado o filho pelo nome do papai, em quem tenho pensado tantas vezes ultimamente, do que pelo meu, mas de qualquer forma, como já foi feito, comecei imediatamente a fazer uma pintura para ele, para pendurar em seu quarto. Grandes ramos de flores de amendoeiras brancas contra um céu azul.” – Vincent para sua mãe, 19 de fevereiro de 1890
Ascensão das obras de arte de van Gogh
Seis das pinturas de Vincent foram expostas em Bruxelas no início de 1890, numa exposição coletiva da associação de artistas belgas Les Vingt (Os Vinte).
O crítico de arte Albert Aurier já havia publicado um artigo positivo sobre a obra de Van Gogh e uma das pinturas expostas, La Vigne Rouge, (A Vinha Vermelha, em português ou The Red Vineyard, em inglês) foi vendida durante a mostra.
Sim! A obra de van Gogh estava começando a ser apreciada.
Mas esta não foi a primeira vez que as obras de van Gogh foram exibidas: Theo submetia as suas pinturas desde 1888 ao anual Salon des Indépendants, em Paris. Dez obras de Vincent foram selecionadas para inclusão em março de 1890, e a resposta foi muito positiva:
“Como eu ficaria satisfeito se você estivesse presente na exposição dos Independentes. […] Suas pinturas estão bem posicionadas e parecem muito bem. Muitas pessoas vieram me pedir para elogiar você. Gauguin disse que as suas pinturas são a chave da exposição.” – Theo para Vincent, Paris, 19 de março de 1890
Em maio de 1890, Vincent van Gogh deixou o hospital psiquiátrico de Saint-Rémy e foi para o norte da França, em Auvers-sur-Oise, onde vários artistas residiam.
A pequena cidade de Auvers ofereceu a Vincent a paz e tranquilidade que ele precisava e, ao mesmo tempo, a facilidade de visitar seu irmão Theo, que estava em Paris. Nesta mesma comuna onde van Gogh estava habitando morava Paul Gachet, um médico que poderia ficar de olho nele.
Vincent rapidamente fez amizade com Gachet que, por sinal, era um pintor amador. Paul aconselhou o amigo e paciente a dedicar-se completamente à sua arte.
E foi isso o que van Gogh fez, pintando os jardins e campos de trigo ao redor da aldeia em um ritmo febril. Vincent se dedicou tanto à pintura neste período a ponto de completar uma arte por dia!
A saúde de nosso querido artista parecia estar melhorando.
O triste e precoce fim de um gênio
No início de julho de 1890, Vincent visitou Theo e sua família em Paris. Foi quando ele soube que seu irmão estava pensando em largar o emprego na casa de negociantes de arte que há tantos anos ele administrava.
O objetivo de Theo era montar seu próprio negócio, o que inevitavelmente representava um certo risco financeiro.
Vincent van Gogh voltou para Auvers preocupado.
“Uma vez de volta aqui eu também ainda me sentia muito triste e continuava sentindo a tempestade que ameaça você também pesando sobre mim. O que pode ser feito – você vê, eu geralmente tento ser bem-humorado, mas minha vida também é atacada pela raiz, meu passo também está vacilante.” – Vincent para Theo, Auvers-sur-Oise, por volta de 10 de julho de 1890
Tanto Theo quanto sua esposa Jo escreveram a Vincent para tranquilizá-lo.
No entanto, a incerteza financeira e o medo de que os seus ataques nervosos pudessem regressar tiveram um grande impacto na saúde mental de Van Gogh. Ele não conseguia se livrar da tristeza em relação ao futuro.
“. . . sabendo claramente o que queria, pintei mais três grandes telas desde então. São trechos imensos de trigais sob céus turbulentos, e fiz questão de tentar expressar tristeza, solidão extrema. Você verá isso em breve, espero – pois espero levá-las para você em Paris o mais rápido possível, já que quase acredito que essas telas lhe dirão o que não posso dizer em palavras, o que considero saudável e fortificante sobre o campo.” – Vincent para Theo, Auvers-sur-Oise, por volta de 10 de julho de 1890
Por mais “saudável e fortificante” que Vincent achasse o campo, foi em vão. Sua doença e sua incerteza sobre o futuro tornaram-se demais.
Em 27 de julho de 1890, ele entrou em um campo de trigo e deu um tiro de pistola no peito. O artista ferido cambaleou até seu quarto na Auberge Ravoux, a pousada onde ele estava.
Theo imediatamente se dirigiu para Auvers e esteve presente quando seu irmão morreu no dia 29 de julho. Acredita-se que van Gogh não tenha morrido especificamente por perfurar algum órgão vital com o tiro, mas sim, devido às infecções causadas pelo mesmo.
Deitado em seu leito de morte, ele ouviu o que dizem ser as últimas palavras de Vincent van Gogh: “A tristeza durará para sempre”.
Vincent foi enterrado em Auvers em 30 de julho de 1890. Seu legado foi um grande conjunto de obras de arte que incluem mais de 850 pinturas e quase 1.300 obras em papel.
Ironicamente, em 1890, ele avaliou modestamente o seu legado artístico como de importância “muito secundária”.
O legado póstumo
Seis semanas após a morte de Vincent, Theo organizou uma exposição memorial do trabalho de seu irmão. Seus muitos esforços e contratempos indicavam que sua própria saúde também estava se deteriorando constantemente. Pouco depois da exposição, ele renunciou seu cargo na empresa onde há anos trabalhava e sofreu um grave colapso nervoso.
Theo foi internado numa clínica em Utrecht, na Holanda, possivelmente sofrendo de sintomas físicos e mentais relacionados à sífilis. Ele morreu lá no final de janeiro de 1891, apenas meio ano após a morte de seu irmão.
As pinturas de Vincent van Gogh ficaram sob os cuidados da viúva de Theo, Jo van Gogh-Bonger.
Após a morte de Theo, Jo mudou-se para a cidade holandesa de Bussum com seu filho Vincent Willem, levando consigo a coleção de arte de Vincent e Theo.
Em 1901, ela casou-se novamente em 1901 com o pintor Johan Cohen Gosschalk e mudou-se com a nova família para Amsterdã depois de dois anos.
Jo procurou aumentar a conscientização pública sobre as pinturas de Vincent de várias maneiras, incluindo empréstimos para exposições em museus de todo o mundo. Cada vez mais compradores surgiram para o trabalho de Van Gogh.
Em 1914, Jo publicou a primeira edição das cartas de Vincent para Theo e, neste mesmo ano, reenterrou Theo em Auvers-sur-Oise, numa sepultura ao lado da de seu irmão.

Após a morte de Jo, em 1925, a coleção de arte de Vincent e Theo passou para o filho dela, o engenheiro Vincent Willem van Gogh, que emprestou as pinturas de seu tio ao Museu Stedelijk, Amsterdã, em 1930.
À medida que a fama de Vincent van Gogh crescia, surgiram pedidos para que a coleção fosse colocada num museu dedicado.
Em 1962, com o consentimento do Estado dos Países Baixos, o engenheiro transferiu a coleção Van Gogh para a Fundação Vincent van Gogh. Em troca, o Estado comprometeu-se a construir o Museu van Gogh e, posteriormente, a garantir que a coleção fosse acessível a todos para sempre.
>> Saiba tudo sobre o Museu van Gogh aqui
Onze anos depois, as obras foram transferidas do Museu Stedelijk para um edifício especialmente projetado por Gerrit Rietveld.
A Rainha Juliana, que governou os Países Baixos de 1948 a 1980, inaugurou o Museu van Gogh em 2 de junho de 1973. Cerca de dois milhões de pessoas visitam o museu todos os anos.
“Não posso fazer nada se minhas pinturas não venderem. Chegará o dia, porém, em que as pessoas verão que valem mais do que o custo da tinta e da minha subsistência, muito escassa, na verdade, que investimos nelas.” – Vicente para Theo, Arles, cerca de 25 de outubro de 1888
>> Por que a arte de van Gogh é tão especial? Confira aqui!
A infância e a juventude de Vincent van Gogh revelam as inquietações de uma mente sedenta de sentimentos como propósito, realização e pertencimento. Felizmente ele encontrou na arte a forma de conectar as linhas e formas outrora perdidas no seu íntimo ser.
Portador de uma tão curta jornada, que lástima van Gogh não ter presenciado a ascensão e reconhecimento de suas artes! Mas talvez, isso nem fosse tão relevante pra ele. Quiseramos nós entender o que se processava naquela tão brilhante mente que, ao guiar habilidosas mãos, nos presenteou com tão cativantes artes!










Uma resposta
Quando li o título do post a primeira coisa que me passou pela mente foi: “Ah sim, Van Gogh, aquele que cortou a própria orelha”, talvez graças a minha professora do fundamental que, enquanto não estava nos fazendo desenhar o Radicci, nos fazia pintar o quadro do quarto do Van Gogh que, como dizia ela, era um solitário depressivo. Sempre achei linda a arte dele, mas não entendia o “alvoroço” causado por ela. Mas graças a esse post, fui tocada pela arte de Vincent Van Gogh. As frases “…Vincent por fim percebeu que poderia servir a Deus como artista”; “Para van Gogh, a mensagem da pintura era mais importante do que a anatomia correta ou a perfeição técnica” e “…Você sempre perde quando está isolado”, fez com que admirasse o tipo de homem que ele era. Ele era tão estranho e encantado. Ele sabia que era muito bom no que fazia, mas também humilde por deixar que novos ares influenciassem suas pinturas; a empatia ao tentar “salvar” uma pessoa irrecuperável e a sabedoria de deixar ir ao entender que ela não queria ser salva; a relação tão próxima com o irmão mais novo e o fato de ele ter permitido que os seus papéis se invertessem; todos os pequenos detalhes tão lindamente explicados… Tirou até meu trauma da pintura do quarto de Arles agora que sei que o objetivo dele era “descansar a mente, ou melhor, a imaginação”. Parabéns Su! Você também é uma artista talentosíssima em sua arte 🩷 Esperando ansiosamente por mais de suas criações 🫶